Banco Master: a teia político‑religiosa por trás de um escândalo bilionário
Banco Master enfrenta liquidação extrajudicial após crescimento acelerado com práticas de risco e questionamentos sobre a compra pelo BRB.
Conexões político-religiosas entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, figuras como Fabiano Zettel e o deputado Nikolas Ferreira são investigadas.
Suspeitas de influência de doações em campanhas políticas e mobilização digital para decisões regulatórias favorecerem o banco são apuradas.
Análise foca em decisões de órgãos como Banco Central, CADE e BRB para identificar responsabilidades e possíveis prejuízos ao erário público.
Não é apenas a história de um banco que quebrou: é o retrato de como finanças, política, religião e mobilização digital podem se articular para sustentar riscos sistêmicos e, em última instância, empurrar a conta para o Estado.
A instituição, criada como Banco Máxima, muda de patamar a partir de 2018, quando Daniel Vorcaro assume o controle e passa a apostar em consignado, crédito pessoal, serviços financeiros e captação agressiva. No mercado, crescia o incômodo com taxas altas para atrair recursos, estrutura de garantias frágil e forte presença de ativos contestados, como precatórios.
Ainda assim, a operação foi sendo naturalizada, apesar do burburinho entre concorrentes. Em geral, quando um banco cresce “puxando o elástico”, algum freio aparece; aqui, ele parece ter vindo tarde demais.
O episódio envolvendo o BRB é o ponto de inflexão que transforma um problema privado em tema de interesse público. O Banco de Brasília, controlado pelo Governo do Distrito Federal, assinou memorando para adquirir o Master mesmo com dúvidas amplamente ventiladas. Houve questionamento do Ministério Público do DF, decisão judicial autorizando a continuidade e o CADE aprovou a operação em junho de 2025.
Em setembro, porém, a área técnica do Banco Central vetou a compra, e a liquidação extrajudicial veio em seguida. Informações de mercado indicam que o BRB teria absorvido ativos deteriorados em volume bilionário e condições questionáveis. Se confirmado, não se trataria apenas de gestão temerária, mas de eventual transferência de prejuízos privados para o setor público.
Rede político‑religiosa
Ao redor do banco, surge um ecossistema de relações políticas e religiosas. Documentos e reportagens apontam conexões entre Vorcaro, Fabiano Zettel e o deputado Nikolas Ferreira, todos mineiros, alinhados ao bolsonarismo e ligados a redes evangélicas de grande influência, como a Igreja Batista da Lagoinha, do pastor André Valadão.
Quando estruturas religiosas acumulam poder espiritual, econômico e político — com mídia própria, negócios e atuação eleitoral organizada — torna‑se legítima a pergunta: essas redes participam apenas da mobilização de fiéis ou também da mobilização de recursos, blindagens e acessos?
Zettel é citado como doador relevante às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 e como figura que transita entre liderança religiosa e operações financeiras, inclusive com o Banco Master.
Nessa perspectiva, o foco deixa de ser “quem é amigo de quem” para se tornar “como circula a influência”: dinheiro alimenta campanhas, campanhas abrem portas, portas derrubam resistências e resistências menores permitem negócios mais arriscados. Quando o risco explode, a tendência é procurar o “ombro largo” do Estado para absorver as perdas.
A guerra de narrativas, nesse contexto, não é periférica: é parte da engrenagem. O vídeo de Nikolas Ferreira sobre suposta taxação do Pix ajudou a derrubar uma normativa do Banco Central voltada à fiscalização de fintechs. A direita digital brasileira mostrou capacidade de criar ondas virais, pressionar instituições e forçar recuos em velocidade superior à apuração dos fatos.
Quando essa máquina de mobilização se alinha a interesses de agentes que lucram em ambientes de baixa supervisão, a pergunta central passa a ser: quem ganha com cada recuo regulatório e quem financia essa estrutura de pressão?
Apesar de tudo isso, boa parte da cobertura sobre o caso Master concentrou‑se em encontros sociais com ministros do STF, fotos, charutos e bastidores. Essa ênfase rende cliques e indignação, mas desvia o olhar da zona cinzenta onde decisões institucionais, interesses privados e redes de mobilização se sobrepõem.
Não se trata, portanto, de blindar autoridades, e sim de trocar o folhetim pelo documento, a narrativa pelos fatos: cronologia de decisões de Banco Central, CADE, BRB, TCU e Judiciário; análise de ativos, garantias, fundos e precatórios; rastreamento de doações, agendas, interlocuções e possíveis contrapartidas indiretas são as peças-chaves para revelar a caixa-preta desse desastre anunciado.
Riscos institucionais
O que torna o caso “pra lá de perigoso” não é a existência de personagens midiáticos nem a proximidade entre empresários e políticos — algo quase banal na República. O risco maior é a hipótese de que um esquema de grande impacto financeiro tenha sido protegido ou empurrado com a barriga por uma teia de poder em que direita e extrema direita, defensoras da “moralidade” e do “combate à corrupção”, apareçam mais como sustentação do sistema do que como instância de fiscalização.
Se essa hipótese se confirmar, o escândalo será duplo: o do dinheiro e o da hipocrisia. E o desfecho deixará de ser apenas mais uma crise bancária para se tornar um teste decisivo para as instituições brasileiras: quem assinou o quê, quando, por qual motivo, com quais consequências — e, sobretudo, quem lucrou com tudo isso.
*Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político.
