Pode o empreendedorismo ser ensinado?
No final da gravação ao vivo do videocast Negócios com Impacto, na Católica Lisbon School of Business & Economics, alguém me fez a pergunta mais incómoda que se pode fazer a um professor de empreendedorismo: se o empreendedorismo pode mesmo ser ensinado. O painel tinha debatido o que falta em Portugal para que o empreendedorismo cresça de forma sustentada — capital, incentivos, mentorias. Questões legítimas. Mas esta pergunta tocou numa dimensão que ficara de fora: o que acontece antes de tudo isso, nas salas de aula onde os futuros empreendedores se formam.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
A resposta existe, mas obriga a reformular a pergunta. O problema não é se o empreendedorismo pode ser ensinado. É se estamos a ensinar o que de facto importa.
Uma geração bem equipada para os problemas errados
Os estudantes que chegam hoje às nossas licenciaturas chegam equipados como nenhuma geração anterior: usam inteligência artificial para rascunhar um pitch em 20 minutos, têm fluência em redes sociais que marcas estabelecidas invejam, gerem projetos paralelos. A competência digital não é o problema.
O problema emerge quando são confrontados com o que as ferramentas não fazem: formular uma boa pergunta sobre um problema que ninguém ainda nomeou, falar com 10 pessoas reais antes de ter uma solução, reinterpretar um feedback negativo em vez de o ignorar. Aprenderam a executar dentro de sistemas definidos, mas raramente foram convidados a agir sem mapa. Ao valorizar a elegância do modelo sobre o rigor do teste, o ensino preparou-os para representar empreendedorismo mais do que para o praticar.
O que a primeira vaga construiu e os seus pontos cegos
Desde o início deste século que as universidades portuguesas normalizaram o empreendedorismo como caminho legítimo e criaram incubadoras, programas de aceleração e de mentoria, dos quais resultam spinoffs. Uma mudança cultural real. Mas foi construída sobre pressupostos que hoje já merecem revisão.
O primeiro é o ensino tratar o empreendedorismo como destino e não como competência transversal: como se o objetivo fosse sempre criar uma startup, quando o que a economia portuguesa mais precisa são gestores, profissionais do setor privado e funcionários públicos que pensem de forma empreendedora.
O segundo ponto cego é a adoção acrítica de modelos importados: a Tela de Modelo de Negócio e os princípios de Lean Startup são úteis, mas uma startup no setor da saúde não pode ignorar o SNS nem a legislação de proteção de dados, e um projeto no interior do país não se financia nem escala como um SaaS de Lisboa. O modelo é o mesmo; a realidade não é.
O que o ensino precisa de desenvolver
A investigadora Saras Sarasvathy chegou a uma conclusão contraintuitiva ao estudar empreendedores experientes: os melhores não começam com um objetivo e com a construção do plano para lá chegar. Começam pelo que têm, pelos recursos que controlam, pelos problemas que observam, e co-criam oportunidades a partir daí. Em vez de planos de negócio perfeitos para ideias que ninguém testou, o ensino orientado por este princípio coloca os estudantes em contacto com problemas reais no seu próprio ambiente.
O processo é menos elegante e muito mais próximo do que os empreendedores de facto fazem. A isto junta-se o pensamento sistémico: Portugal tem complexidades específicas que os modelos importados não captam, desde as assimetrias entre litoral e interior até uma transição demográfica entre as mais rápidas da Europa. Ensinar empreendedorismo sem mapear estes sistemas é preparar os estudantes para um país que não existe.
Propósito como estratégia
Os estudantes desta geração têm o desejo genuíno de construir projetos com impacto. O ensino tem aqui uma oportunidade que ainda desperdiça com frequência, reduzindo o propósito a decoração estratégica: um slide sobre impacto social e depois o regresso ao modelo de negócio convencional.
Um exemplo: uma equipa desenvolve uma aplicação de fitness com métricas de crescimento razoáveis e uma estratégia de monetização clara. Quando questionada sobre quem é a pessoa cuja vida muda com o produto, consegue descrever uma persona de marketing, mas não uma pessoa real. A sugestão de ir falar com utentes de um centro de dia nas proximidades parece, num primeiro momento, uma distração. Três semanas depois, a equipa volta com uma descoberta que os dados de mercado não mostravam: a solidão é o problema de saúde mais prevalente entre adultos mais velhos em Portugal, está ligada à imobilidade e à desconexão digital, e nenhuma solução existente o endereça. O projeto transforma-se numa plataforma de envelhecimento ativo com uma componente de conexão intergeracional. A proposta de valor fica mais rica, a estratégia mais coerente e a equipa passa a tomar decisões por razões que consegue explicar.
Portugal é um dos países da Europa que envelhece mais rapidamente, com mais de um quarto da população acima dos 65 anos. O envelhecimento é uma oportunidade de inovação em saúde digital, habitação inclusiva e serviços de proximidade. Ensinar empreendedorismo como se o mercado-alvo fosse sempre um jovem urbano de 28 anos é ignorar uma das maiores transformações estruturais do país.
Três mudanças práticas
O tempo letivo deve privilegiar a ação sobre a teoria. Perguntas como "o que descobriste esta semana que contradiz a tua hipótese?" ensinam mais do que qualquer modelo. Mas isso exige um modelo de acompanhamento próximo e regular que a maioria das instituições ainda não reconhece como trabalho docente legítimo.
Os projetos ganham quando têm parceiros reais. A ficção do semestre-startup produz aprendizagem limitada porque opera num vácuo institucional. Projetos em parceria com municípios, hospitais ou empresas em transformação colocam os estudantes em contacto com os constrangimentos que qualquer empreendedor enfrenta: burocracia, ciclos de decisão longos, regulações que não foram escritas a pensar em soluções novas. Esse atrito é pedagógico e não pode ser simulado.
Por fim, os concursos de pitch têm valor, mas quando se tornam o ritual central do ensino transmitem uma mensagem errada. Empreender não é uma corrida com um vencedor, é uma construção iterativa que beneficia de colaboração. Feedback entre pares e partilha aberta de resultados, incluindo os que falharam, preparam melhor para essa realidade.
O que o ecossistema pode fazer
O ecossistema português tem lacunas reais em capital de risco de fase inicial e em regulação que acompanhe a inovação. Mas há uma variável que raramente se corrige a partir de fora: a qualidade da formação que os empreendedores trazem consigo quando chegam ao mercado. Um programa que financia incubadoras sem investir na pedagogia que as alimenta está a construir infraestrutura sem conteúdo.
Portugal não precisa de mais licenciados capazes de fazer uma apresentação convincente. Precisa de pessoas que saibam identificar problemas reais, trabalhar com a incerteza e construir soluções adequadas ao país que existe, não ao país que os manuais americanos imaginam. A geração nas nossas salas de aula tem as ferramentas para isso. O que o ensino pode e deve providenciar é a capacidade de as usar para os problemas certos.
Os estudantes estão prontos. A questão é se o restante ecossistema também estará.
opinião católica-lisbon
22 dez, 2025Pequenas vitórias, grandes mudanças: os líderes inovadores olham para trás antes de dar um salto à frente
18 ago, 2025European Ocean Pact e os empresários portugueses: Top 5 de oportunidades na nova economia azul
02 jun, 2025A porta aberta. Reinvenção profissional na segunda metade da vida
24 mar, 2025Uma nova tela para o empreendedorismo na Europa: a visão de autonomia estratégica como oportunidade de negócio
23 dez, 2024Ser CEO na era da IA
08 jul, 2024Invenção e inovação: uma dança que move a humanidade
15 jan, 2024Empresas vs. jovens profissionais. Crónica de promessas não cumpridas
21 ago, 2023O empreendedorismo tecnológico é para todos!
13 fev, 2023Inovação e regulação, amigos ou inimigos?
