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Noelia

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27.03.2026

A Noelia tinha 25 anos e foi eutanasiada na tarde de quinta-feira, em Espanha, num hospital.

Pediu para morrer sozinha, como sozinha afirmava ter vivido.

Uma história real de infelicidade e angústia, depressão e raiva desde cedo, desde sempre.

Os pais, as instituições, o Estado não a conseguiram proteger. Dos outros e dela própria.

Choca a sucessão de traumas, a ideia de morte que se foi formando.

Choca o desejo de paz, sem desejo de vida.

Choca a unanimidade de quem participou nas avaliações, de quem lutou para que morresse, porque cumpria os critérios, os procedimentos. Choca a desistência dos clínicos. Choca que haja médicos que em vez de cuidar e acompanhar, prescrevem e aplicam drogas de morte.

Choca a afirmação de que a medicina e a psiquiatria já não tinham resposta.

Choca que concordassem com a sua morte, porque era o seu desejo, o seu direito.

Choca que tantos aceitaram que a maneira determinar com o sofrimento de Noelia, era acabar com a sua vida.

Choca que muitos pensem que isto é bem e é por bem! Que isto é dignidade.

Noelia tinha graves problemas psiquiátricos e uma incapacidade mental de 67%.

A capacidade de consentir estava diminuída, menos livre. O desespero, a desesperança, a desolação retiram a liberdade de decidir em liberdade.

Atravessou-se uma linha vermelha, muitas vezes anunciada, sobre a a Eutanásia em doentes psiquiátricos.

Opuseram-se muitos. O pai, os advogados, a Igreja, outras instituições, políticos. Lutaram aqueles que acreditam que o sofrimento acompanhado gera esperança.

Lutaram aqueles que acreditam que as Leis e o Estado servem para proteger, para regular, para defender a vida.

Não foram a tempo, apesar de lutarem muito.

Noelia morreu sozinha. Morreu dentro do sistema de saúde, dentro de um hospital. Morreu de forma legal. Morreu porque desistiram dela. Morreu porque não conseguiu deixar de sentir que o remédio para a sua vida atormentada, era acabar com a vida.Morreu porque foi morta.

Não há dignidade nesta morte. Há tristeza, perplexidade, choque, vazio.

Margarida Neto é psiquiatra e presidente da Associação de Médicos Católicos

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