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​André de Windsor: o cidadão ex-príncipe

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25.02.2026

O “indivíduo com cerca de 60 anos” que a polícia britânica deteve na semana passada para interrogatório sumário, provavelmente instrutório de um processo judicial futuro, nasceu no Palácio de Buckingham, a 19 de fevereiro de 1960, como terceiro filho da rainha Isabel II, de seu nome completo André Alberto Cristiano Eduardo Mountbatten Windsor. Foi “Sua Alteza Real, o príncipe André” do berço ao casamento, em 1986; “Sua Alteza Real, o duque de Iorque” do casamento até ao início de 2022, quando a rainha lhe retirou a titulatura real; “André, duque de Iorque” até outubro de 2025, quando o novo monarca, seu irmão, Carlos III, lhe retirou a titulatura nobiliárquica; e André de Mountbatten Windsor desde então, quando se tornou um simples cidadão britânico, ex-príncipe, para sempre afastado dos “royal seniors”, escorraçado para longe e caído em desgraça social, moral e financeira.

A detenção do cidadão André é o primeiro grande impacto internacional das recentes revelações dos ficheiros Epstein, mostrando como as teias da rede montada pelo sórdido multimilionário norte-americano chegavam longe e fundo. A queda do filho preferido de Isabel II já vinha de longe, à medida que se foi constatando o seu envolvimento sexual com mulheres (menores) da rede de tráfico e exploração humana montada por Epstein para satisfazer luxúrias suas e alheias, e possivelmente para chantagear os poderosos que assim caíam na sua órbita. Mas agora, a essa dimensão imoral soma-se a dimensão política e judicial de alguém acusável de “má conduta no exercício de cargos públicos”, porque, no desempenho das suas funções de Enviado Especial para o Comércio Internacional e para o Investimento (entre 2001 e 2011), André terá facultado informações de Estado confidenciais a Epstein, numa espécie de “inside trading” ilegal, que favoreceu oportunidades de investimento ao líder da rede.

Desde o escândalo com o ministro John Profumo, nos anos 1960, sexualmente envolvido com uma jovem de 19 anos que partilhava informações com um adido militar soviético, nada de tão comprometedor abalava a política britânica. Acresce que o próprio governo de Starmer também parece ter um pé preso em Epstein, pela amizade de Peter Mandelson com o americano, que já levou à demissão do chefe de gabinete do PM. As novidades históricas do caso de André de Windsor abundam: foi o primeiro e único membro da realeza a ter o título de príncipe retirado; o primeiro integrante sénior da Casa Real a ser preso desde Carlos I Stuart em 1648 (que acabou julgado e decapitado no ano seguinte); e será, provavelmente, o primeiro filho de monarca a ser afastado, por lei, da linha de sucessão ao trono (onde ainda ocupa o 8.º lugar).

Poderá o reprovável comportamento do ex-príncipe André impactar negativamente na monarquia britânica? Se os títulos se retiram e o afastamento se impõe, o sangue não se dissolve, e o proscrito jamais deixará de ser irmão do rei Carlos III e tio do futuro rei Guilherme V. Em todo o caso, Buckingham reagiu de forma rápida e adequada à detenção, apoiando a aplicação da lei e reafirmando a missão e o dever de serviço público da monarquia. Isto dito, é óbvio que o lóbi republicano, ainda minoritário no Reino Unido, não deixará de explorar o caso para minar Carlos III. Se os populismos tomarem a parte pelo todo, a corrupção do irmão do rei pode comprovar a ilegitimidade da monarquia (tal como a corrupção de um alto cargo eleito o pode fazer a uma república). Talvez não seja esse o melhor caminho - e a estratégia que já estava a ser seguida pela Casa Real britânica mostra a sageza de quem sabe que o principal capital simbólico das Coroas é a exemplaridade moral e cívica, e por isso também sabe por onde deve passar a linha vermelha que ditou e dita a queda do cidadão ex-príncipe.

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