Crónica: Debita nostra CCLXXXIII
Crónica: Debita nostra CCLXXXIII
Luís Costa - 02/04/2026 - 9:01
“Foi com o seu estilo habitualmente direto e pouco dado a gentilezas que a Representante da UE para a Política Externa, Kaja Kallas, usou o seu discurso no dia de encerramento da Conferência de Segurança de Munique (13-15 de fevereiro de 2026) para garantir que, ‘ao contrário do que alguns podem dizer, a Europa woke e decadente não está perante o apagamento civilizacional’”. (Público, 16-02-2026). Não se trata de conotar negativamente o movimento ‘woke’, no que ele representa de uma especial consciência (democrática) sobre a discriminação de diversas identidades minoritárias nas nossas sociedades. E muito menos de o recusar (ao próprio termo) neste oportuno uso para contestação de algumas sobranceiras apreciações sobre a “decadência” civilizacional da Europa. Trata-se sim de o colocar no contexto, a que pertence, do vivo relacionamento entre diferentes identidades, habitualmente desigual, porque invariavelmente praticado no seio de desequilibradas relações de poder, nem sempre coincidentes com maiorias/minorias demográficas. Situação de correlação de forças que facilmente convive com discriminações e, por isso, se entende como potencialmente conflitual. Mas, ainda assim, dificilmente superável sob o desígnio de uma ‘perspetiva do conflito’, em que se arrume, tendo em conta a ideia de que por aí passa muito do fluir das sociedades. Ou, então, o propósito de rebusco dos ‘novos humilhados’ que, em cumprimento de velhas profecias, finalmente protagonizem uma predestinada, derradeira e equitativa revolução social (DEBITA NOSTRA CCLXXXII). Ora acontece que, independentemente do atual ‘prestígio’ da ‘individualidade’, as nossas identidades se forjam sempre em contextos de relações humanas e sociais, com que indissociavelmente se tricotam no muito daquilo que hão de ser. Definindo, desde logo, o que nos distingue do que não somos, mas também bastante do que poderemos ou não t(s)er. E é por isso que, não sendo irredutíveis, tais identidades se assumem como vitais, intransponíveis e beligerantemente intransigentes. Em tudo o que lhes sugira (in)verter (pre)(dis(posições; no que intente propor-lhes a equivalência das suas mais firmes distinções; em muito do que se lhes afigure como móbil de subversão ou belisque o seu ‘natural’ edifício social. E se não é por aí que as identidades mudam, é por aí que se enquistam em redutos defensivos arduamente ultrapassáveis, predispostamente incompatíveis e acirradamente antagónicos, de que não é difícil encontrar exemplos. Certamente todos os que Anne Applebaum (2020) reencontrou em diversos setores conservadores, como o americano. Naquela “enervada” população para quem, invertendo valores (pp. 168): “paga-se qualquer preço, perdoa-se qualquer crime, ignora-se qualquer atrocidade, se essa for a condição necessária para ter a verdadeira América, a velha América, de volta” (DEBITA NOSTRA, CLXXII). Mas também na reversa e militante caricatura do dogmático “wokismo” de uma outra américa, quer desafiando o mais elementar bom-senso (Jean-François Braunstein, 2023, “A Religião Woke”), quer contradizendo-se nos seus mais invocados propósitos (John Mcwhorter, 2021, Racismo WoKe).
