Crónica: Debita Nostra CCLXXXI
Crónica: Debita Nostra CCLXXXI
Luís Costa - 05/03/2026 - 9:01
“Quase todos os erros cometidos por Lenine e pelos seus seguidores tiveram origem na tentativa de conter a realidade complexa num esquema simples, e na convicção de que o capitalismo não poderia recuperar o seu dinamismo, porque a dialética estipulava a sua morte iminente. (…) Porém, (…), acredito que esta revolução humana não será realizada pelas ações cegas de uma única classe, mas por uma rede difusa de seres humanos a agir de forma consciente.” (Paul Mason, “Um futuro livre e radioso”, 2019, pp. 348 e 353).
Creio ser em períodos de anunciada reconfiguração das relações internacionais, como o atual, que melhor se evidencia a rigidez de algumas (pre)disposições políticas globais, geralmente firmadas em inabaláveis crenças, fruto de crónicos desequilíbrios sociais.
Nomeadamente, quando tais vivências e a perceção do seu carácter estrutural, superam a clarividência do inesgotável dinamismo das sociedades, na sua própria persistência, preferindo “contê-las” num dado contexto histórico. Ou, contraditoriamente, na derradeira “simplicidade” dos “esquemas” por que antes foram sendo interpretadas, apesar da sua crescente complexidade.
Assim com a ‘força’ de certas arrumações geopolíticas. Ao ponto de me lembrarem um jogo da minha adolescência em que qualquer incauto era desafiado a exercitar-se na superação de uma série de obstáculos para que depois a pudesse fazer de olhos vendados.
O cómico da situação resultava da (es)forçada mímica com que, às cegas, tentava ‘vencer’ os ditos obstáculos, depois de retirados. Ao invés, portanto, do atual drama de quem teima em ajeitar-se aos contornos de uma anterior configuração geopolítica, com a iniludível agravante da ‘(in)consciência’ de que ela já não existe.
Mais grave, porém, será a insistência em jogar com os dados de uma precedente estratificação social, e as respetivas “classes”, ainda que sob o pretexto de não ter havido mais do que uma simples metamorfose da sua intempestiva ‘inequidade’ social. Esforçando-se então por tocar a (re)unir os dispersos herdeiros do proletariado em que esquematicamente depositara as testamentárias esperanças.
Tão fixadas numa “única classe” que assim puderam menosprezar a profusão e habilitada agência dos demais estratos sociais, conseguindo ‘trespassar’ o remanescente “povo”. Com as (d)escritas consequências dos anos 30 do séc. XX (Paul Mason, 2021), se é que não com as que se hão de escrever sobre os atuais excluídos da globalização (DEBITA NOSTRA CCLXXX).
Mas em tudo subestimando a irredutível “mudança social”, seja ela progressiva ou revolucionária.
Ora, assumindo, mesmo que envergonhadamente, o reformismo, de imediato se adota todo o “povo”, ainda que ‘defeituoso’, em particular, os seus escalões intermédios cujo ‘poder de arrasto’ as democracias têm em muito cautelosa consideração.
Já quanto à revolução, é ela própria que se reivindica do “povo”, ainda que atualizando um “mito urbano”: é que a figuração popular pode não ser mais do que a “praia” onde melhor vingam as ‘equipadas’ ambições dos ‘deserdados-filhos-segundos’.
