A mulher de bege — da domesticação social do corpo
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Estive num retiro literário e, ao partilharmos uma com a outra as dificuldades do nosso primeiro ano de imigração, a autora que conversava comigo disse-me que eu não parecia alguém que tivesse ficado deslocada. Ao contrário, parecia até muito bem adaptada. Na ocasião, eu estava com uma maquiagem neutra, um corte de cabelo clássico e vestia blusa bege de manga curta, calça off-white com corte de alfaiataria e um par de tênis caramelo. Trazia um par de brincos de pérola bem discretos e as unhas pintadas de bege.
Ao ouvi-la, repousei as mãos sobre o colo e, ao sentir o toque do tecido da roupa, veio-me à memória como eu era antes de imigrar. A pele era bronzeada e os cabelos, repicados, queimados de sol. Usava as unhas vermelho-sangue, brincos grandes e vestidos descapotados. Os anos em Portugal foram algo entre a força e a temperança. Regressei dessa deriva e disse-lhe que aprendi os códigos para estar aqui, para saber transitar. E ser respeitada.
Quando cheguei, não era assim. A adaptação não foi espontânea, foi aprendida. E, quando eu cheguei, ainda julgava os brasileiros que traziam na fala as palavras e, às vezes, até o sotaque português. Achava uma incoerência e disse a mim mesma que não me dobraria, até que as fricções da imigração fizeram o seu trabalho.
A mulher que eu fui ao chegar julgaria a mulher que me tornei, mas, falando a partir de quem hoje veste essa pele, não ter buscado a temperança entre quem se é e quem o entorno pede que sejamos teria sido uma experiência demasiado bruta para uma mulher que imigra só. Não consigo nomear esse luto identitário de outra forma, senão como uma renúncia estratégica. As fricções........
