menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Esta cidade ainda tem este teatro?

12 0
12.03.2026

Francisco Frazão liderou, durante oito anos, um projecto cultural e artístico exemplar e necessário no Teatro do Bairro Alto (TBA), em Lisboa, correspondendo à missão que lhe foi entregue pelo município de desenvolver uma casa dedicada à criação contemporânea, à experimentação e inovação teatrais, coreográficas e performativas. O TBA fez isso e muito mais, garantindo uma qualidade e diversidade essenciais na vida cultural lisboeta, ajudando a forjar uma nova geração de artistas e de público.

Agora, Francisco Frazão é afastado da direção do TBA de uma maneira que talvez seja juridicamente possível mas que é politicamente inaceitável. A justificação é o fim de mandato, mas não há nenhuma solução apresentada para o vazio deixado por este afastamento inexplicado e inexplicável. Nem a administração da EGEAC, empresa municipal que gere o TBA, nem a Câmara Municipal de Lisboa, que a tutela (a Cultura está parcialmente sob o pelouro do presidente, Carlos Moedas), apresentam uma razão para não o reconduzir, quando a recondução seria a normalidade, sobretudo se nenhuma alternativa foi preparada.

Não dizem se discordam da maneira como o TBA é dirigido (e talvez não possam fazê-lo porque a excelência do trabalho é reconhecida a nível local, nacional e internacional). Não dizem se pensam mudar a missão daquela casa nem quais seriam os novos rumos e as novas políticas culturais que justificarão a decisão (o que provavelmente é um sintoma da indiferença do executivo camarário pelas políticas culturais). Não sabem se vão abrir um concurso público para a direção do TBA semelhante àquele que Francisco Frazão ganhou com transparência e mérito há oito anos, sugerindo que um teatro municipal talvez possa ser dirigido administrativamente e não precisar de um projecto artístico (o que seria um retrocesso monumental da liberdade de criação e programação na cidade de Lisboa). Não parecem achar que tenham de dar a mínima justificação aos munícipes para uma decisão que, neste moldes, é tão injusta quanto autoritária. De uma penada, afasta-se um director que faz um excelente trabalho, criam-se as condições para a extinção de um projecto necessário e inventado pelo próprio município e colocam-se em risco projectos artísticos confirmados e planeados para este ano e o próximo. Uma autêntica bola de demolição cultural.

O que é ainda mais grave em todo este nevoeiro autoritário e desrespeitoso é que este incidente acontece dois meses depois de Margarida Bentes Penedo, deputada municipal do Chega, ter desferido um ataque violento, ignorante e anti-democrático ao TBA em plena assembleia municipal, exigindo que o teatro se dedicasse a fazer uma programação cultural de direita. Na altura, o presidente da assembleia municipal e alguns partidos defenderam o TBA e, por consequência, a mais elementar liberdade de programação e criação. No entanto, a EGEAC e o presidente da câmara que tutela directamente a empresa municipal remeteram-se ao silêncio quando tinham a obrigação institucional de defender o equipamento autárquico. O silêncio ou, pelo menos, a falta de respostas e explicações mantém-se, o que abre a porta a uma interpretação gravíssima deste afastamento de Francisco Frazão: a de um saneamento político do director e de todo o projecto por pressão interna da extrema-direita no município.

Em qualquer dos casos, esta decisão é um erro colossal e a falta de explicações e de soluções para o futuro do TBA é politicamente inaceitável. Desta feita, a responsabilidade política directa é de Carlos Moedas e a recente notícia do afastamento de Rita Rato do Museu do Aljube permite mesmo pensar que o que a Câmara de Lisboa está a levar a cabo é uma purga dos equipamentos culturais do município.

No momento da sua abertura, o slogan esperançoso do TBA foi “Esta cidade tem este teatro”. Ainda?, devemos perguntar a quem deveria dar resposta. O resto não pode ser silêncio.


© PÚBLICO