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A história do Punch não é sobre o peluche, mas sobre a prisão de animais

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23.02.2026

A história do pequeno macaco-japonês Punch agarrado a um peluche correu o mundo em poucos dias. Não foi apenas uma fotografia. Foram vídeos, repetidos até à exaustão, mostrando um animal jovem num espaço de cimento, um quotidiano inteiramente artificial e inóspito, com a presença pontual de um funcionário que entra, despeja comida no chão e sai. A reacção foi imediata: comoção, partilhas, comentários, uma ternura quase colectiva perante aquele gesto de consolo improvisado de um animal rejeitado que encontrou abrigo num orangotango de peluche.

Para além da tristeza, há algo nesses vídeos que se destaca: a rotina. A ausência total de relação. Não se trata de um momento particularmente violento, nem de um acto excepcional. É precisamente o contrário. É a normalidade. A engrenagem a funcionar como foi concebida para funcionar. Entre tantos outros espaços de exploração animal, os parques zoológicos continuam a apresentar-se como instituições respeitáveis, educativas, quase inevitáveis. O cenário muda, o discurso adapta-se, mas a estrutura mantém-se: animais confinados para serem vistos, num modelo profundamente ultrapassado, ainda que hoje cuidadosamente maquilhado de conservação.

A comoção em torno do peluche não me surpreende. A empatia é um reflexo humano básico, e é reconfortante que ainda exista. O que me inquieta é a facilidade com que essa empatia se fixa num detalhe isolado e esquece tudo o resto. O confinamento permanente, a ausência de escolha, a vida inteira vivida num espaço artificial. Precisámos daquele objecto para sentir alguma coisa, enquanto o sistema ficou fora de campo.

Durante os meus primeiros anos na Animal passei algum tempo em parques zoológicos, entre outros locais. A fotografar, a filmar, a observar. Vi rotinas repetidas, comportamentos estereotipados, frustração silenciosa. Vi animais a adaptar-se ao que não era adaptável, porque não havia alternativa. Eram outros tempos, diz-se hoje com alguma frequência, como se isso encerrasse a conversa. O que me custa admitir é que, quase vinte anos depois, a sensação seja a de que estamos essencialmente no mesmo lugar. Os vídeos que circulam hoje não mostram algo radicalmente diferente do que eu vi nessa altura. Mostram um determinado sistema a funcionar. Um quotidiano desprovido de emoção não necessariamente porque alguém decidiu ser cruel, mas porque o modelo não exige empatia. Exige gestão, manutenção, funcionamento, lucro. Não é sempre o excesso de violência que mais perturba, é a banalização de tudo isto.

Talvez seja por isso que a história do peluche tenha tido tanto impacto. Ela oferece uma narrativa simples, quase infantil, que permite comoção sem consequências. É mais fácil partilhar uma imagem comovente do que questionar uma instituição inteira. É-nos mais confortável falar de um gesto “terno” do que admitir que continuamos a aceitar a prisão de animais como entretenimento humano.

Em 2026, já não estamos a falar de falta de informação; estamos a falar de escolha. Da escolha de continuar a chamar normal ao que é estruturalmente violento, desde que seja organizado, limpo e socialmente aceite. A chamada “conservação das espécies” funciona, muitas vezes, como tranquilizador moral. Repete-se até se tornar argumento suficiente para evitar a pergunta essencial: se sabemos que o cativeiro permanente é eticamente problemático, porque continuamos a legitimá-lo?

É claro que as pessoas querem ver estes animais ao vivo. É claro que existe fascínio, curiosidade, deslumbramento. Não é difícil compreender isso. O problema é que o desejo não pode nem deve ser argumento ético. O facto de querermos muito uma experiência não a torna justa nem torna menos problemática a ideia de manter animais presos para que possamos observá-los de perto.

Nada disto é sobre o peluche, mas sobre o sistema que continua quase intacto. E é exactamente aí que deve residir a mudança. Essa mudança está nas nossas mãos enquanto consumidoras/es, nas escolhas que fazemos e no modelo que decidimos financiar e legitimar. Se continuarmos a sustentar estes espaços, continuaremos a permitir que tudo isto seja apresentado como normal.

É mesmo isto que queremos aceitar, agora que já não podemos dizer que não sabíamos?


© PÚBLICO