A (ir)responsabilidade cívica como prática diária
No nosso país, existe um hábito cultural que cultivamos com afinco, ao qual gosto de atribuir o nome de “a indignação de café”. Sentados à mesa, ou a olhar para o ecrã do telemóvel, somos rápidos a diagnosticar todos os males deste país. Apontamos o dedo, exigimos soluções e criticamos o estado das coisas com uma facilidade invejável. Mas, quando chega a hora de passar da reclamação coletiva para a ação cívica, o cenário muda de figura. A política em Portugal tem-se vindo a tornar num espaço onde quase todos reclamam, mas muito poucos estão dispostos a sujar as mãos e a participar na construção de alternativas.
Cesci numa geração que é perfeitamente capaz de assinar petições globais com um clique e de partilhar causas fraturantes nas redes sociais, mas que, na sua esmagadora maioria, não sabe o nome do presidente da sua junta de freguesia. E este é um sintoma transversal a quase todas as idades. Habituámo-nos a olhar para a política como um universo habitado exclusivamente pelos "outros", por uma elite distante que fala em siglas e complexidades.
É certo que a classe política, de uma ponta à outra do espetro, tem as suas culpas. As estruturas partidárias são muitas vezes opacas, a linguagem afasta o cidadão comum, e a perceção de que o sistema está fechado sobre si mesmo enraizou-se na nossa cultura. Quando a resposta às ansiedades de quem estuda ou trabalha esbarra num muro de promessas sucessivamente adiadas, sejam elas de quem governa ou de quem faz oposição, o desinteresse surge como um mecanismo de defesa. A nossa apatia cívica é, em grande parte, o reflexo direto da desilusão com todo um modo de fazer política, independentemente das cores.
Quando decidimos que a política "não nos interessa", estamos a passar um cheque em branco. O nosso desinteresse não castiga um só Governo ou um partido da oposição. Pelo contrário, dá a toda a classe política o conforto e a liberdade absoluta para atuar sem verdadeiro escrutínio.
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Mas será que podemos continuar a atirar a responsabilidade exclusivamente para quem preenche as fileiras dos partidos? A verdade é que a democracia não é um dado adquirido, nem uma máquina que funciona sozinha e que nos entrega os resultados em casa. É toda uma construção frágil que exige manutenção constante. E, demasiadas vezes, nós preferimos o conforto da abstenção, não apenas falhando nas urnas, mas demitindo-nos da nossa vida em comunidade.
A participação política não significa, obrigatoriamente, filiarmo-nos num partido, colarmos cartazes ou estarmos na primeira fila de um comício de esquerda, de centro ou de direita. Esse é um dos nossos maiores equívocos. Ir votar de quatro em quatro anos devia ser apenas o patamar mínimo da cidadania. A verdadeira musculatura cívica treina-se nas suas bases. Faz-se ao aparecer na assembleia de freguesia para questionar onde está a ser gasto o orçamento local. Faz-se ao criar ou integrar uma associação de moradores, um grupo de voluntariado, na associação de estudantes da faculdade, ou simplesmente ao ter a coragem de apresentar soluções numa reunião de condomínio. A política, no fundo, é tudo aquilo que decide como vivemos em conjunto.
Quando decidimos que a política "não nos interessa", estamos a passar um cheque em branco. O nosso desinteresse não castiga um só Governo ou um partido da oposição. Pelo contrário, dá a toda a classe política o conforto e a liberdade absoluta para atuar sem verdadeiro escrutínio. Se as cadeiras das assembleias e das reuniões públicas continuarem vazias, haverá sempre quem se sente nelas para defender interesses que não são os nossos.
Aquilo que precisamos de questionar, seja aos vinte ou aos sessenta anos, é que tipo de país queremos construir. A indignação passiva, aquela que nasce e morre na caixa de comentários de uma rede social ou num desabafo entre amigos, e o conformismo com a inação não mudam uma única prática no mundo real. O verdadeiro abanão democrático começa no momento em que percebemos que o nosso silêncio também é uma escolha política. E, quase sempre, é a mais perigosa de todas.
