O botão que falta no SNS
Um doente que sigo há anos entra no gabinete. Antes de lhe perguntar como está, abro sempre, pelo menos, quatro sistemas diferentes. As análises estão num, os exames de imagem noutro, o diário clínico noutro, a medicação que prescrevi noutro — e a que ele de facto levantou na farmácia não está em nenhum que eu consiga ver depressa. Nada está errado nem em falta. Está disperso. A síntese que a decisão clínica exige é feita de cabeça, em cada consulta e contra o relógio.
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Grande parte do tempo do médico não vai para decidir: vai para reconstruir o caso clínico. Um estudo com milhões de consultas mediu 16 minutos de utilização do registo clínico por consulta — um terço dos quais a rever o processo. Ninguém mediu isto em Portugal, mas quem trabalha num hospital do SNS sabe que não é menos. Reunir informação dispersa, cruzá-la com o conhecimento publicado e discuti-la é aquilo que os modelos de linguagem atuais já fazem bem – e a decisão fica, sem ambiguidade, do lado humano. Uma ferramenta barata que permitisse poupar alguns minutos por episódio na agregação da informação clínica e no auxílio à tomada de decisão seria extremamente valiosa.
Os médicos já usam estas ferramentas. O inquérito da associação médica americana de 2026 encontrou 81% dos médicos a usar inteligência artificial em pelo menos uma tarefa da sua prática, mais do dobro dos 38% de 2023. Um estudo sueco publicado este ano descreve médicos a recorrer a assistentes comerciais não autorizados, sobretudo o ChatGPT, para compensar o que os sistemas........
