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Ao Estado a que chegámos

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22.02.2026

A tempestade Kristin voltou a expor um dos problemas mais persistentes da política pública em Portugal: somos maus a antecipar, maus a prevenir e, talvez pior, sistematicamente incapazes de aprender com os erros. Perante fenómenos climáticos extremos, continuamos a agir como se fossem acidentes imprevisíveis, quando são cada vez mais parte do novo normal num país profundamente vulnerável às alterações climáticas.

Falta-nos uma verdadeira cultura de prevenção. Falta-nos ordenamento do território — ou, mais precisamente, falta-nos vontade política para o aplicar. Preferimos continuar a alimentar a ilusão de que Portugal pode crescer à margem dos limites ecológicos, mesmo quando o conhecimento técnico e científico produzido no país aponta há décadas noutra direção.

É inevitável perguntar: o que diria hoje Gonçalo Ribeiro Telles? Provavelmente o mesmo que dizia nos anos 1980. A diferença é que agora já não podemos alegar ignorância. Sabemos onde não se deve construir, sabemos como gerir bacias hidrográficas, sabemos que a ocupação desordenada do território amplifica cheias, deslizamentos, incêndios e falhas nos sistemas críticos. Ainda assim, escolhemos ignorar esse conhecimento — e, em alguns casos, enfraquecer deliberadamente os instrumentos que poderiam mitigar os riscos. Reserva Ecológica Nacional e Reserva Agrícola Nacional dizem-vos alguma coisa?

A resposta do Estado resume-se, muitas vezes, a um SMS enviado horas antes do desastre. Não há planeamento territorial sério

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Na última década, os exemplos acumulam-se. Em 2017, o pior ano de incêndios da história recente causou 115 mortes, seguido, nas mesmas regiões, pela tempestade Leslie. Em 2022, quase 25.000 hectares arderam no Parque Natural da Serra da Estrela — cerca de um terço daquela área protegida. Em 2024, uma vaga de incêndios lançou o caos no Norte e centro do país, consumindo mais de 135.000 hectares (lembram-se das imagens das autoestradas a arder com carros a circular?). Em março de 2025, a depressão Martinho devastou a serra de Sintra; meses depois, o incêndio que começou em Piódão tornava-se o maior registado em Portugal, com mais de 64.000 hectares ardidos. E, em 2026, ainda mal o ano começou, já a tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que causou 16 mortos, deixando milhares sem eletricidade e impondo custos de reconstrução que podem ultrapassar os 4 mil milhões de euros.

O padrão é claro. A resposta do Estado resume-se, muitas vezes, a um SMS enviado horas antes do desastre. Não há planeamento territorial sério, não há gestão integrada da paisagem, não há uma abordagem preventiva à gestão da água que vá além do abastecimento urbano, agrícola ou da produção hidroelétrica. Ignoram-se as boas práticas de gestão das bacias hidrográficas, apesar de serem essenciais para reduzir riscos e aumentar a resiliência.

Os ministros sucedem-se, como bem ilustra a recente demissão da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, mas continuamos sem aprender, sem antecipar e sem prevenir. A pergunta que os portugueses acabarão por fazer é inevitável: que Estado é este a que chegámos, e para que serve, afinal?

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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