Quando Dorian Gray olha para o retrato da paisagem
Oscar Wilde imaginou um homem que encontrou uma forma de escapar às inevitáveis consequências do tempo. Dorian Gray permanecia jovem, belo, aparentemente intacto. Era o retrato, escondido num quarto, que envelhecia por ele e registava as linhas e as marcas do tempo e da sua história, aquilo que o rosto recusava mostrar.
Fazemos algo semelhante com a nossa paisagem mediterrânica, até porque ela não é apenas o que vemos, é também aquilo a que pertencemos. Reconhecemo-la nos sons, nos aromas, nas estações, nas árvores e nas memórias associadas a um lugar. Há nela uma dimensão ecológica, económica e afetiva. Quando se degrada, não perdemos apenas habitat, perdemos familiaridade, identidade e parte da relação que construímos com o território.
Apesar disso, medimos desenvolvimento sobretudo pelo que conseguimos mensurar rapidamente, quer seja o nível de produção, o investimento feito, a energia instalada ou os hectares regados. Porém, a verdadeira questão começa quando aquilo que se perde não se vê e fica fora da moldura, como a importância dos elementos naturais como o solo, água, biodiversidade ou a própria capacidade de resiliência dos ecossistemas.
Descarbonizar é indispensável, mas uma infraestrutura renovável não se torna ecologicamente neutra apenas porque produz eletricidade com baixas emissões. Que fique claro que a escolha não é entre energia e biodiversidade, mas fazer a transição respeitando o território.
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Criámos uma economia muito competente a reconhecer os ativos que produz, mas bastante menos hábil em reconhecer os ativos naturais que perde ou degrada. Uma ponte que liga duas margens entra imediatamente nas contas como........
