Espelho
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Talvez o melhor da leitura seja o diálogo do leitor com o livro. Quando o leitor é ele próprio um escritor, aí é que o diálogo pode mesmo abrir horizontes inesperados e sugerir infinitos desdobramentos. O autor encontra no texto a possibilidade de desenvolver ideias que no texto foram apenas esboçadas, de pavimentar sendas rascunhadas na terra, ou de seguir em direção diametralmente oposta a partir de um mesmo ponto.
Eu andava desassossegado pelas ruas da Baixa, pensando em Bernardo Soares e no que ele escreveu sobre o espelho. Para ele, Bernardo/Fernando, o espelho causou a desgraça do homem. Atirou ao lixo o dom que a Natureza lhe deu de ser incapaz de ver a própria cara, de não poder fitar os próprios olhos. “O criador do espelho envenenou a alma humana”, diz ele, advogando, portanto, que o espelho teve um criador e que esse constrangeu o homem a enxergar ali o seu reflexo. O espelho teria sido posto........
