Saldo bancário: dez euros. Despesa: dez euros, dia 31
Quem nunca contou moedas não sabe o país onde vive. Falta ordenado para o mês, que se arrasta longo e demorado, enquanto as despesas se precipitam com uma rapidez cruel, são mais oito cêntimos no combustível, depois mais cinco, e de repente encher o depósito uma única vez consome 10% do salário mínimo nacional, como se fosse um luxo e não uma necessidade. E são as compras, sempre mais caras, e são os filhos que precisam de calças novas porque cresceram sem pedir licença, e de sapatilhas que já não cabem no pé porque o tempo não espera pela carteira. Vive-se atolado de dificuldades, numa espécie de resistência diária e só se sensibiliza verdadeiramente quem as vivencia ou quem já as viveu na pele, sem filtros, sem romantismos.
O episódio com que titulo esta crónica é isso tudo, verídico, sem filtros e talvez nem gostasse de o partilhar, mas hoje, que já consigo rir-me dele com alguma distância, parece-me o ponto de partida mais honesto e mais pertinente. Estava a dar os meus primeiros passos no jornalismo, ainda com aquela mistura de entusiasmo e ingenuidade que só os começos têm. Num primeiro emprego recebia 200 euros mensais, depois passei para um segundo onde ganhava 500 euros a recibos verdes, ainda a viver na casa dos meus pais, mas com deslocações diárias para Viseu, que não se pagavam com vocação.
Numa dessas manhãs acordei cedo porque tinha um........
