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Todas as dores do mundo

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08.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

De fazer compras em um supermercado em São Paulo às tragédias globais, temos de resistir à indiferença que transforma a dor – nossa e dos outros – em um símbolo do cotidiano. O incômodo é a barreira contra a indiferença e a garantia da nossa humanidade.

Pertenço ao seleto grupo de seres humanos que pode comprar uvas. Não havia parado para pensar em que, comparado com o todo da humanidade, dispor de dinheiro para comprar frutas no supermercado faz-me, de algum modo, pertencer a uma elite. Foi meio de surpresa que tomei consciência disso, exatamente enquanto apanhava as uvas no supermercado para colocá-las no carrinho. Ao meu lado, um senhor, que parecia tão privilegiado como eu, com as suas compras no carrinho, de modo um tanto disfarçado, diga-se de passagem, abria o plástico de uma embalagem de uvas para comê-las. Olhou para mim e disse que precisava experimentá-las. Fiquei sem saber o que fazer.

Um dos atendentes do supermercado também notou algo estranho e se aproximou do senhor. O mais educado que conseguiu ser, disse-lhe que ele não podia estragar os pacotes de fruta. O senhor tornou a repetir o que me dissera, que ele era cliente e precisava experimentar. O rapaz intimidou-se e deu as costas. O senhor não apanhou uvas, mas continuou empurrando o seu carrinho; havia já bastante fruta ali. Eu pensei no atendente, um rapaz novo, cabelo descolorido, um olhar inquieto, daquelas pessoas que não associamos ao grupo que pode comer uvas quando quer, assim como eu ou o senhor que agora perdia de vista entre a aglomeração do supermercado.

Morar em São Paulo, na cidade de São Paulo e, ainda mais, na região central, faz-me ver muitas pessoas que não têm possibilidades de comprar frutas quando querem. Várias delas vivem nas ruas. Estão sempre por perto, incomodando, não tanto pelo que fazem ou falam, mas porque vê-las nos lembra – ainda que não nos demos conta disso – que estamos falhando como sociedade. Perdido nestes pensamentos, tive de abrir de novo a lista do supermercado. Ia agora atrás de iogurtes. Reencontro o mesmo senhor, agora a escolher um queijo ou algo assim. Apanhei os meus iogurtes e afastei-me. Não seria o "bendito" do homenzinho estar também experimentando o queijo? Às vezes, escondemo-nos de saber uma verdade para sermos mais felizes, não é?

O problema da dor dos outros é, em parte, a reação que ela nos provoca. É fácil sentir-se melancólico diante do que o outro sofre e fugir da cena. Mas, por vezes, é uma atitude de autossobrevivência. Talvez porque posso comprar frutas, nunca tenho a exata dimensão da dor daqueles que estão na rua sem teto. Mesmo que não queira fugir, inunda-me uma sensação de não ser suficiente. Os impostos são elevados no Brasil, o Estado deveria cumprir a sua responsabilidade de sanar efetivamente o problema. Mas não o tem sido, apesar das significativas melhoras a que temos assistido na luta contra a pobreza. Estar encampando essa luta já tem o seu mérito.

A dor dos outros não se reduz à pobreza. Há tantas dores! Talvez até aquele senhor cavucando o plástico das uvas tivesse a sua. Mas, sem dúvida, há dores que doem mais. Estou já no carro voltando para casa. As compras no banco de trás por uma estranha preguiça de colocá-las no porta-malas. O pensamento sobre a dor dos outros insiste em ocupar meu cérebro e eu agora pensando nas famílias das meninas mortas naquela escola infantil feminina lá no Irã. Dezenas. Como falar nas dificuldades em ser mulher no Irã depois disso? E o que são uvas roubadas perto disso? Quanto realmente essas dores me afetam? Não deixarei de comer uvas, compradas devidamente, claro, por causa disso. Nem faz muito sentido pensar de outro modo. Talvez seja melhor nem pensar.

Há um tempo, meu idealismo abrigava-se na arte. A arte que revelava, denunciava a dor dos outros fascinava-me. Mas também para isso há limites. A dor alheia, sobre a qual por mais que me esforce não conheço, merece um respeito que torna o exercício artístico ainda mais difícil. E a arte é avessa ao proselitismo, às lutas políticas e falar em dor é, por si só, um ato político. Depois li a Susan Sontag e fui obrigado a concordar que ver gente sofrendo antes de uma pizza com amigos não é um modo muito coerente e respeitoso de tratar o sofrimento alheio. Especialmente, na fotografia, quando a personagem ali presente não é de ficção, mas um ser real que continua sofrendo depois da presença do fotógrafo e deve continuar sofrendo apesar de minha simpatia pela sua dor discutida entre conceitos estéticos e qualidade de pizza com os amigos.

Estou quase chegando a casa, meio irritado por não conseguir sair desse torpor das reflexões sobre a dor alheia, quando lembro do queridinho brasileiro do momento, o filme O Agente Secreto. Estava agora com uma sensação análoga àquela que senti quando assisti ao filme. Filmaço! Essa sensação de derrota é, no entanto, a maior das vitórias. Dá-me a certeza de estar vivo! A memória da dor dos outros é o registro de que não perdemos a esperança, de que continuamos a viver, incomodando-nos com os que roubam uvas nos supermercados, com os que matam meninas em guerras inventadas ou com os que criam um clima de sufocante densidade (i)moral.

O incômodo enquanto dirijo é a minha garantia de não que normalizei as dores do mundo. Nenhuma delas. Alimento a esperança de um mundo melhor e mais justo e, mesmo por vezes me equivocando, continuo fazendo aquilo que posso. Porque permito que o meu incômodo, imperfeito como é, me motive a agir. Ainda bem que o carro já estava entrando na garagem porque foi um modo feliz de terminar minhas reflexões que agora coloquei aqui na tela do computador e, enquanto digito este final, penso em comer um cacho de uvas.


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