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Todas as dores do mundo

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08.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

De fazer compras em um supermercado em São Paulo às tragédias globais, temos de resistir à indiferença que transforma a dor – nossa e dos outros – em um símbolo do cotidiano. O incômodo é a barreira contra a indiferença e a garantia da nossa humanidade.

Pertenço ao seleto grupo de seres humanos que pode comprar uvas. Não havia parado para pensar em que, comparado com o todo da humanidade, dispor de dinheiro para comprar frutas no supermercado faz-me, de algum modo, pertencer a uma elite. Foi meio de surpresa que tomei consciência disso, exatamente enquanto apanhava as uvas no supermercado para colocá-las no carrinho. Ao meu lado, um senhor, que parecia tão privilegiado como eu, com as suas compras no carrinho, de modo um tanto disfarçado, diga-se de passagem, abria o plástico de uma embalagem de uvas para comê-las. Olhou para mim e disse que precisava experimentá-las. Fiquei sem saber o que fazer.

Um dos atendentes do supermercado também notou algo estranho e se aproximou do senhor. O mais educado que conseguiu ser, disse-lhe que ele não podia estragar os pacotes de fruta. O senhor tornou a repetir o que me dissera, que ele era cliente e precisava experimentar. O rapaz intimidou-se e deu as costas. O senhor não apanhou uvas, mas continuou empurrando o seu carrinho;........

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