Pink Street: o turismo mata a vida noturna
Estava anunciado há dez anos, quando a chegada repentina e numerosa de turistas às noites do Cais do Sodré acarretou o desaparecimento quase instantâneo das classes médias-altas lisboetas que tinham (re)conquistado a Rua Nova do Carvalho após a abertura da Pensão Amor, do O Bom, o Mau e o Vilão e a posterior transformação cromática do asfalto da referida rua.
De forma análoga a inúmeras cidades da nossa geografia global, as elites da cidade rejeitam frontalmente partilhar os seus espaços e tempos de lazer com turistas embriagados de classe média precarizada (sendo generosos) e, menos ainda, com sujeitos saídos de um voo da Ryanair que se plantam diretamente na Pink Street disfarçados de girafas, com um pénis mais comprido do que a própria cauda deste mamífero artiodáctilo.
O encerramento de estabelecimentos de diversão noturna orientados para a comunidade local (Sabotage, Viking, Jamaica, Tokyo, Europa, Bar Oslo) devido, principalmente, à colonização extrativista do bairro por parte de grupos portugueses de investimento hoteleiro e de apartamentos turísticos (em ambos os casos, maioritariamente de matriz lisboeta-portuguesa) resultou numa rápida homogeneização do perfil sociodemográfico do coletivo notívago do bairro.
A Pink Street já não é um ponto de encontro para os amantes das noites com hora e local de término incerto, mas sim a artéria principal de atividades lúdicas diurnas e noturnas do mega-resort turístico-hoteleiro urbano que a CML tem adotado ao longo da última década e meia como estratégia principal de regeneração urbana do Cais do Sodré: uma versão lisboeta da Rua Cândido dos Reis de Albufeira aberta das 10h da manhã às 6h do dia........
