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Viana do Castelo: anatomia de um coração em filigrana

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26.02.2026

Obrigo-me ao aborrecimento. A distração contínua tornou-nos marionetas. Em pé, de costas para o Lima, na Praça da Liberdade, observo a aorta de Viana do Castelo através da imponente moldura em chapa de aço ferruginosa que, não tendo sido concebida com esse propósito, enquadra na perfeição a Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, a estação ferroviária e o Santuário do Sagrado Coração de Jesus no Monte de Santa Luzia.

Subo a Avenida dos Combatentes até à Rua da Picota, que desagua na Praça da República, e entro no Museu do Traje, rico em trajes e ourivesaria tradicional. Demoro-me na observação de três peças: um coração de filigrana em ouro de 1880, um lenço dos namorados com a mensagem “Até à Morte” e um xaile negro. Imagino um diálogo:

— O meu coração é teu —, sussurra a rapariga, ainda ruboriza do beijo apaixonado.

— E o meu é teu, até à morte — jura o rapaz, selando a promessa com um abraço que dura uma vida inteira.

— Partiste, meu amor, neste mar que já levou o meu avô e o meu pai. Até me voltar a juntar a ti na vida eterna, o negro é a minha cor.

Onze e meia, hora mágica na Pastelaria Confeitaria Manuel Natário, mesmo ao lado do museu. Cheira a bolos, claro, e a fritos. São os fritos que procuro. Sento-me numa mesa, sozinho. Várias mesas estão ocupadas por grupos de pessoas que conversam e riem. Além de mim, apenas um outro homem se senta sozinho. Rói as unhas enquanto olha para o telemóvel. Está cá, mas não está.

Na mesa à minha esquerda, dez pessoas de várias gerações discutem o melhor acompanhamento para o bacalhau. “Vocês comem as batatas?”, pergunta o decano. “Bacalhau é com batatas!”, acrescenta, ao ver dois adolescentes, um rapaz e uma rapariga, encolherem os ombros em simultâneo. “E beber?”, indaga. “Água ou Coca-Cola”, responde a rapariga, sorrindo. “Por amor de Deus, com os brancos que aqui temos…”

Na mesa em frente, três amigos septuagenários partilham uma garrafa de verde branco de Monção e degustam empadas de pato. “Vêm todos os dias tomar um aperitivo e comer um rissol ou uma empada”, explica o empregado, quando lhe peço que me elucide sobre os rituais dos clientes. A Bola de Berlim ainda está morna quando a levo à boca. Lembra um Sonho de Natal recheado com um creme suave. A massa não é gordurosa e o toque de canela está no ponto certo.

Percorro toda a rua Manuel Espregueira encostado às paredes dos prédios. As varandas são curtas, mas protegem-me da morrinha. Quase a chegar ao Largo de São Domingos, a chuva engrossa. Refugio-me na soleira da porta da Loja do Bangledesh, onde Liton Buyain, o proprietário, cobre os produtos expostos na rua com um plástico transparente. Convida-me a entrar. “Corre bem o negócio?” “Sim. Não tem movimento agora, é mais Natal e Agonia.” Pergunto-lhe se gosta de Viana. “Gosto muito, Viana tudo gente boa. Seis anos em Portugal, mas sozinho não é bom…”, explica num português com poucos artigos, mas explícito. No tempo em que vivemos, em que tudo parece estar à distância de um toque num ecrã de telemóvel, há distâncias que a tecnologia não encurta. Despeço-me com um abraço e retomo a caminhada à deriva pela malha urbana.

No Campo da Agonia, decorre uma prova de atletismo. “Vai, vai... Se já não podes, caminha. Não pares que é pior.” É visível a agonia da atleta no rosto escarlate, na respiração aos ais e no passo bamboleante. Um par de bombeiros acode a rapariga que desfalece. “Muito ecrã, pouco exercício”, brinca um deles. Inspirado nos atletas, arrisco um corta-mato até à rua dos Mareantes, junto ao forte de São Tiago da Barra. Num pequeno armazém, Daniel Lomba, de 74 anos, remenda uma rede, enquanto partilha as proezas como nadador-salvador e a vida nos petroleiros. “Já almoçou?” Respondo-lhe que não. “Aqui em redor tem onde comer robalo, dourada, pargo… tudo do nosso mar”, sugere com orgulho.

Sento-me na esplanada do restaurante O Manel. Apesar da sugestão do velho lobo do mar para o peixe, a minha escolha recai no Bacalhau à Manel: numa travessa, apresentam-se duas postas fritas em cebolada, com pimentos, batata frita às rodelas e metades de ovo, tudo a nadar no azeite da fritura. Comi primeiro a badana, uma verdadeira escultura gastronómica. Que escultor há maior que a natureza? Depois tratei do lombo. “Sobremesa?! Já não me cabe mais nada, amigo.” “Come pouco o senhor. Vem de Lisboa, não é? É que isto no Minho é um prato normal…”, diz-me Filipe.

“Coma a metade, caminhe o dobro, sorria o triplo.” Falhei o primeiro, comprometo-me com os outros dois. Largo Vasco da Gama, Fundação Maestro José Pedro. “Estou a ensinar uns acordezinhos à Maria Irene para irmos tocar as Janeiras. Um dois, três, um, dois, três… Vá, sem medo, à tua velocidade”, encoraja Miguel Sousa, professor de guitarra. Os dedos de Irene, jovem brasileira que vive há dois anos em Viana o Castelo, movem-se timidamente nas cordas. Mas o seu olhar brilha. E isso é tudo o que conta.

Encaminhado por Miguel, dirijo-me ao Teatro Municipal Sá de Miranda. Cheira a madeira, veludo e tempo. O ensaio já começou. No palco, o formando André Xavier comanda, com gestos amplos e expressivos, uma orquestra de jovens músicos. A cena é apaixonada e enérgica. “Muito bem, Xavier, está muito melhor”, elogia Alberto Roque, o maestro que, por estes dias orienta, em conjunto com Diogo Costa, a orquestra sinfónica da Escola Profissional Artística do Alto Minho (ARTEAM) no contexto do Programa de Cooperação Ibero – Americana Iberorquestras Juvenis.

As pernas, cansadas de muitos quilómetros a percorrer as ruas de Viana de Castelo durante dois dias, pedem descanso. Refastelo-me numa das confortáveis cadeiras do teatro e desfruto de Huapango, de José Pablo Moncayo. A peça, inspirada na música folclórica mexicana, celebra a profunda e inabalável força da identidade de um povo. É o acorde final da Viana do Castelo que se revela em cada esquina, em cada rosto, em cada aroma, em cada sabor e em cada melodia: um intrincado e valioso coração em filigrana, onde se manifestam a sua identidade arraigada e a riqueza das suas tradições.

A Road Trip Literária - Ler é o Melhor Caminho, que sucedeu à Road Trip Literária - 18 Distritos, 18 Bibliotecas, 18 Livros, para voltar a dar palco às bibliotecas e voz a quem nelas trabalha, promovendo a leitura, a cultura e o conhecimento, reinventou-se. Para além das bibliotecas e dos autores locais, a 4.ª edição inclui outros projectos e iniciativas que valorizam a identidade das regiões, as suas pessoas e modos de vida.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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