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Acéfala. Estúpida. Alucinada. Feiosa.

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28.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Já se tornou banal citar a banalidade do mal, apontada por Hannah Arendt nas engrenagens da burocracia nazista. Ela mostrou como sujeitos triviais, uma vez integrados a uma máquina de aniquilação do Outro, passavam a adotar comportamentos brutais, sem o menor constrangimento moral.

Às vezes, me pergunto o que Hannah diria da banalização do ódio, disseminada em grande parte do mundo contemporâneo.

Acéfala. Estúpida. Alucinada. Feiosa. São insultos à minha pessoa que encontrei no Facebook, em resposta ao último texto que escrevi para o PÚBLICO Brasil. Um texto que, por acaso, viralizou — e acho curiosa a popularidade desse verbo, de etimologia patológica.

Foram mais de 100 mil visualizações, milhares de likes, centenas de comentários fofos no Instagram. Mas o que me interessa é discutir essa recepção polarizada, não como um problema pessoal meu, e sim como uma questão cultural nossa.

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“Os admiradores corrompem”, disse Nelson Rodrigues, o que me faz suspeitar também do amor contabilizado em coraçõezinhos, um recurso gráfico que cumpre a função de reforço narcísico. Embora possa ser fonte de prazer, o narcisismo é sobretudo fonte de ódio: incita o sujeito a buscar sempre a identificação especular, e a repudiar qualquer traço de diferença.

Cliquei nas fotos de alguns perfis que me xingaram. Sou psicanalista: trabalho escutando as pessoas e levando a sério o que me dizem. Tentei entender a gratuidade do ódio por trás dos sorrisos serenos, das selfies ao pôr do sol, dos retratos de cidadãos de bem.

Lamentei que a oportunidade de um debate construtivo, favorável ao pensamento crítico e dialógico, fosse demolida pela lógica binária do discordo-logo-odeio ou concordo-logo-amo.

As mídias sociais criaram um bug nos nossos circuitos cognitivos, que até pouco tempo distinguiam com clareza o espaço público do privado. Alguns anos atrás, a maioria de nós ainda guardava no armário os seus afetos mais baixos, constrangidos pela vergonha civilizatória. Hoje, não.

Cada pessoa dispõe de um megafone digital para vociferar as suas moções outrora inconfessáveis, por um túnel virtual que conecta a sua intimidade à vida lá fora. A casa e a rua se mesclam num metaverso perverso, onde passou a ser aceitável ofender e agredir o Outro. Aceitável e desejável, porque as ofensas geram reações inflamadas, premiadas por algoritmos movidos a engajamento emocional.

Quanto mais nos odiamos, mais enchemos de dinheiro os bolsos de meia dúzia de empresários, donos dessas mídias antidemocráticas travestidas de espaços de liberdade.

Quanto mais nos expomos a essas guerras digitais, mais nos dessensibilizamos aos seus horrores, a tal ponto que a brutalidade se torna trivial — e retornamos a Hannah Arendt.

“Se todo mundo soubesse o que cada um faz entre quatro paredes, ninguém se cumprimentava”, avisou Nelson Rodrigues, no século passado. Agora que perdemos a tampa dessa caixa de Pandora, como fazemos para voltar a nos cumprimentar, com algum respeito e dignidade?


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