Geografia sentimental
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Estou em Londres para um período de trabalho no Instituto Warburg, da Universidade de Londres, com apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), agência pública portuguesa de apoio à pesquisa. Antes, quando ainda era um estudante, tinha estado aqui uma única vez, em um dezembro muito frio de 2018.
Naquele ano, assim como agora, vim a Londres sozinho e uma das minhas memórias mais frequentes daquela época sou eu a caminhar quilômetros pelo Hyde Park, com um pouco de frio, um pouco de fome e um pouco de tristeza, além de desejar, naquelas caminhadas, ter um fone de ouvido, alguns dados móveis e um aplicativo de música para poder escutar uma canção brasileira que eu não parava de cantarolar baixinho: Como Vai Você, na voz de Daniela Mercury, canção que eu gostava de escutar quando era um adolescente nos anos 2000 e ainda morava no Brasil.
Eu estava sem um fone de ouvido porque, ou havia perdido, ou havia deixado de funcionar. Tenho quase certeza que foi o segundo caso, pois, na época, e até mesmo antes, o dinheiro sempre foi curto demais até mesmo para ter um fone de ouvido de qualidade razoável. Isso também explica o fato de, naquela primeira viagem a Londres, eu não possuir nenhum aplicativo de streaming e nem mesmo dados móveis para ouvir música à vontade enquanto caminhava. Quando foi que deixamos de utilizar reprodutor de MP3 ou player de música offline?
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Em um daqueles dias de caminhada pela cidade, com um pouco de frio, um pouco de fome e um pouco de tristeza, eu estava em Westminster e me embrenhei, desatento, em um protesto da ultradireita que pedia a saída do Reino Unido da União Europeia, protesto este que tinha doses cavalares de sentimento xenofóbico e anti-imigração.
Não é que esses passeios por Londres tenham sido absurdamente ruins, contudo, se avolumava, dentro de mim, a consciência sentimental da minha condição precária e austera, uma consciência úmida, quase encharcada pelo inverno londrino, e que eu acho que ficou tanto em mim quanto nos lugares da cidade pelos quais passei.
Agora, novamente em Londres, como professor e pesquisador, e em condições materiais razoavelmente melhores do que aquelas do passado, caminho por aí, pego o metrô, vou aos museus, sento-me nos bancos das praças e jardins, vou e venho da universidade no Bloomsbury, e penso baixinho: seria esta a oportunidade de repovoar Londres com outras memórias, como se fosse possível refazer uma geografia sentimental da cidade? Do que eu precisaria para isso?
Preciso de coisas quase minúsculas, acredite: poder pagar um café quentinho, em uma cafeteria aquecida, quando na rua lá fora, mesmo que agora seja primavera, às vezes navega um vento frio; poder pegar o metrô quando as pernas estão cansadas demais sem achar que o valor do bilhete de passagem pode tirar o dinheiro do meu almoço minúsculo; ter um fone de ouvido para, enquanto caminhar na rua ou estiver no trem, escutar o álbum aqui, ali, em qualquer lugar, onde Rita Lee junta o rock dos Beatles com a Bossa nova; ou, então, para poder ouvir qualquer música do Pet Shop Boys.
Até mesmo poder pagar por alguns dados móveis para ter acesso a um mapa online porque, quando chove, o mapa de papel vai umedecendo aos poucos, murchando aos poucos, até esfarelar nas suas mãos. Depois, chegar em casa e poder tomar um banho quente, enquanto o mundo lá fora é um heavy metal caótico; ou som de bombas sobre o Médio Oriente.
Para alguns, isso parece pouco, mas, posso afirmar que não é: despir Londres da minha memória sentimental austera é preciso de um cuidadoso ritual das coisas minúsculas, pois, a cada final do dia, o conjunto ausente dessas coisas minúsculas forja em você um estado permanente de emoções tristes.
Pergunte isso a um psicólogo ou a um sociólogo; ou pergunte a algum imigrante empobrecido; ou pode perguntar a mim mesmo e direi: a pobreza não diz respeito apenas a um estado de vulnerabilidade material e financeiro constante, mas também, e sobretudo, a um estado de dor existencial perene; e dói nas coisas minúsculas.
O escritor brasileiro Caio Fernando Abreu, nos anos 1970, quando passou por aqui, escreveu um pequeno conto, em forma de diário, entre a dor da fome, a dor do desabrigo e a dor existencial de, mais uma vez, não ter encontrado um lugar para chamar de seu.
Outro escritor brasileiro, João Gilberto Noll, quando publicou Lorde, nos anos 2000, apresentou um personagem, provavelmente um alter ego de si, que transita pelas ruas, hospitais, praças e hotéis londrinos, sem saber ao certo se trocou a angústia na qual vivia em seu país natal pela angústia que vivia na Inglaterra.
Lembrei de Noll e Caio Fernando durante estes dias; e lembrei, também, de Fernando Pessoa, que nem gostava de viajar, mas que, ao reinterpretar uma máxima latina, escreveu: “viajar é preciso, viver não é preciso”. Mas, agora, não sou nenhum desses argonautas; não sou nem mesmo o argonauta daquela primeira viagem a Londres. Sou outro argonauta, noutra Londres, que escreve: viajar é preciso; viver bem também é.
Como vai você? Cantarolava meu eu argonauta de 2018. Só agora respondo: acho que vou bem.
