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Hoje é o meu dia, pensou o livro esquecido

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Vivo nesta biblioteca há mais de setenta anos, salvo o dia em que me limparam e catalogaram, e estou, literalmente, cingido à posição da prateleira desde que aqui entrei. Antes disto não me lembro de nada; era novo e a memória já me falha, como se a infância fosse um corredor mal iluminado onde as coisas se desfazem.

Sei apenas que existo entalado entre dois companheiros: o Bhagavad Gita e o Breviário Romano. Já devem ter adivinhado quem sou — o livro dos livros, a Bíblia, claro. Nos últimos anos perdi a esperança de que alguém me requisitasse, de que me levassem para casa. Preferia perecer nas mãos de alguém, de preferência uma criança, durante muito tempo sonhei com isso, ser folheado por dedos curiosos, alguém que se detivesse na minha história como quem escuta um segredo antigo.

Mas ouvi, outro dia, dessas conversas de corredor que julgam que nós não ouvimos — e nós, os livros, absorvemos tudo, nada nos escapa —, e percebi, eu e os meus companheiros de prateleira, que já ninguém tem interesse em nós, tirando os estudantes da área, ninguém se aproxima da estante de teologia. E o que mais me agastou, o que me deixou verdadeiramente triste, foi perceber que, no meu caso, no caso da Bíblia, quem tem interesse já comprou um exemplar. Posso, portanto, esquecer o sonho de um dia ser levado para casa de alguém, conhecer um leitor, saber como vive, como é ser folheado pelas mãos de quem procura.

Mas hoje aconteceu qualquer coisa de extraordinário, direi mesmo um milagre. Hoje, no Dia Mundial do Livro, entrou pela biblioteca um grupo de crianças alvoraçadas, via-se que queriam desatar a correr pelos corredores, mas foram contidas por professoras de meia-idade, com aquele ar cansado, quase irritado: "Sacanas dos miúdos, parece que nunca viram uma biblioteca". Crianças de um metro de altura, mal chegavam às prateleiras do meio das estantes. E então uma menina, não teria mais de oito ou nove anos, com um vestido azul e dois totós loiros, pediu licença à professora para subir os degraus até à nossa prateleira: "A minha avó tem este livro, mas não me deixa mexer, diz que é sagrado." E então aconteceu. A menina retirou-me da prateleira e levou-me contra o peito até uma mesa. Ali deitado, sob o olhar atento de alguém para quem a vida ainda agora começara, perscrutado com cuidado e curiosidade, tive a certeza de que chegara o momento da minha morte. Mas, afinal, renasci.


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