Carteirista sentimental
Se a tua mãe sabe cozinhar e o teu pai só tem amigos homens mas, ainda assim, se comove com as coisas frugais da vida, sem alarde, como quem não quer dar nas vistas, então sabes que estás safo, que calhaste na família certa, que o mundo gira como deve à volta do sol, e tu dentro dele sem esforço, sem sequer dares por isso.
Mas se te aconteceu de forma diferente, se a tua mãe pede comida pré-feita e chora por tudo e por coisa nenhuma, e o teu pai cozinha acima das possibilidades esmeradas das mães das tuas amigas mas vive com outra família, então estás tramado, não há maneira de disfarçar, o mais certo é ires parar às artes ou dares em bandido, como eu, que sou carteirista de profissão, não por talento mas por uma virilidade frágil que nunca assentou direito.
Graças aos meus pais, em minha casa só entra comida pré-feita, como se cozinhar fosse uma espécie de traição, não tenho loiça, à excepção de um copo para vinho, e um conjunto de talheres com os quais ataco as embalagens que me trazem a casa, e no meio disto tudo não me consigo livrar da sensação, persistente, quase física, de que algo está errado comigo. Não posso dizer que vivo mal, porque não vivo, vivo bem até — mas há qualquer coisa, uma falha miúda que não se vê, que insiste, como se o mundo girasse na mesma, sim, mas ligeiramente fora do eixo, e eu desse por isso.
Há anos que prometo a mim próprio que deixo de roubar, prometo como quem fala sozinho, sem testemunhas, que arranjo um trabalho decente, uma coisa com nome e horas, e abandono esta vida solitária, sem mulher, sem família, sem amigos, uma vida que não faz barulho nenhum. E ontem aconteceu qualquer coisa, um sinal, um aviso, um travão, não sei, que me deixou a pensar que talvez tenha batido no fundo, ou que tenha passado o fundo e esteja agora num sítio mais baixo, uma subcave onde já nem a vergonha chega. Assaltei uma miudinha. Uma adolescente, treze anos, se tanto.
Nunca tinha roubado uma miúda, sou ladrão, sim, mas sempre achei que havia mínimos de decência, uma espécie de linha, e não sei o que me deu, que falha me atravessou, para sacar da mochila da miudinha loira uma carteira cor-de-rosa, com corações e brilhantes, leve demais para o peso que me ficou nas mãos. Depois os dois euros no porta-moedas. E o cartão da escola. O sorriso dela na fotografia, a franja despenteada, o ar de quem ainda não sabe como a vida pode ser madrasta, e foi aí que qualquer coisa em mim cedeu, como uma coisa antiga que se parte sem fazer barulho, e desatei a chorar, a chorar como há muito não me acontecia, como se as lágrimas pudessem limpar este coração de pessoa crescida, todo sujo e amarrotado. Chorei até me doerem os olhos. Chorei com essa esperança absurda de que ainda houvesse qualquer coisa para salvar. E talvez tenha havido, não digo que sim, mas talvez, porque hoje entrei no metro, como entro sempre, com o corpo já a saber o que fazer antes de mim, e saí. Saí sem roubar.
