menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Diogo Ramada Curto: o ofício e o seu legado

14 0
14.04.2026

Tornámo-nos colegas e amigos.À imagem do erudito sentado no seu lugar predileto da sala de leitura da Biblioteca Nacional, gostaria de opor a do Diogo Ramada Curto professor. Conheci o Diogo (deixarei, por uma vez, cair o ‘Professor’ que ele nunca declinou nas nossas conversas) em 2009.

Para alunos do segundo ano de ciência política, entre os 18 e os 19 anos, que se aventuravam na sua cadeira de Sociologia Histórica, a coisa era estranha: cada semana uma obra, centenas de páginas de Weber, Elias, Polanyi, e muitos outros, discutidas sob a forma de seminário; rejeitava o lugar professoral e sentava-se à secretária corriqueira ao mesmo nível dos alunos. Um seminário de leitura. Quem, ao fim das duas primeiras sessões, não abandonava o barco, tinha de suar. E se não suasse, ele topava. Prática que seguiria sempre, convidava quem não se sentisse capaz ou procurasse algo de útil a sair voluntariamente. Útil no sentido estritamente utilitário. “Isto não serve para nada”, comentava.

Mais tarde, seria apanhado em contradição. Lembro-me bem de quando, não procurando utilidade alguma no que líamos além do conhecimento capaz de responder aos grandes problemas morais e sociais, ele lá acabava por confessar: quem conseguir ler e interpretar isto estará mais apto a trabalhar numa consultora ou num banco.

Um notável sentido de humor, que escondia uma verdade simples: os cientistas sociais são trabalhadores, logo o que têm de aprender é um ofício. Problemas complexos (adjetivo que repudiava, porque o “complexo descomplexifica-se”) exigem o confronto crítico com as teorias e estudos, e esse combate, com que tão bem fez a ponte entre a sala de aula e o espaço público, é difícil. Exige um enorme respeito, mesmo que a truculência da crítica o não revele à primeira vista. Para nós que marrámos, noites a fio, partes intragáveis de Economia e Sociedade, por exemplo, toda essa conversa soava a falso: como não se cansava de repetir, e só mais tarde viemos a compreender, a aprendizagem mimética do conteúdo importa menos que o ato de compromisso com o autor e o editor, que começava na compra do livro e terminava na leitura crítica, que ele a fazia mordaz.

O trabalho do cientista social, para Ramada Curto, começa com três instrumentos: “uma mesa qualquer, um livro e uma lâmpada”, dizia. Aberto o livro, segue-se a vigilância. Este sentido do prático não o encontrei em mais ninguém. Um sentido de respeito, também, pelo aluno — creio falar por muitos que com ele aprenderam, que se houve coisa que Diogo Ramada Curto não fez foi menorizar os........

© PÚBLICO