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Liderança no feminino na engenharia: não é uma opção, é uma responsabilidade

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Durante muito tempo, insistimos em discutir a presença de mulheres na engenharia como uma questão de números. Quantas entram? Quantas saem? Quantas chegam a cargos de topo? Mas não penso que neste momento estas já sejam as perguntas certas, pelo menos em alguns países na Europa e em particular em Portugal. Já não basta fazer estas perguntas. A questão mais relevante é: quem está a liderar o desenvolvimento dos sistemas tecnológicos que estão a redefinir a sociedade?

Hoje, uma parte crescente das decisões que moldam o nosso quotidiano, do acesso a cuidados de saúde à forma como trabalhamos, comunicamos, informamos ou mesmo somos avaliados, está a ser delegada em sistemas informáticos suportados por inteligência artificial. Estes sistemas não são neutros. Incorporam enviesamentos, modelos morais, prioridades e visões do mundo. Se estas visões do mundo forem limitadas ou enviesadas, os sistemas também o são.

As mulheres trazem consigo perspetivas, experiências e leituras do mundo que são fundamentais para construir sistemas mais inclusivos, mais éticos e mais representativos. Não porque exista uma “forma feminina” de fazer engenharia ou desenvolver sistemas informáticos, mas porque a diversidade de experiências melhora radicalmente a forma como concebemos tecnologia.

Um estudo de Anita Woolley publicado na revista Science (2010) revela que os grupos que integram mais mulheres apresentam níveis de inteligência coletiva mais elevados devido a fatores como a sensibilidade social. Ignorar esta realidade, numa era dominada pela inteligência artificial, é desenhar o futuro com um ponto cego.

A crescente digitalização da sociedade e a disseminação capilar da inteligência artificial, presente em múltiplos setores e níveis de decisão, tornam urgente capacitar engenheiras e engenheiros informáticos com competências de liderança. No caso das mulheres, este reforço é particularmente crítico, tendo em conta as desigualdades de oportunidade e a maior penalização social associada ao erro, fatores que continuam a limitar a sua confiança em assumir posições de decisão.

Mas há uma questão estrutural, continuamos a formar excelentes engenheiras informáticas com fortes competências técnicas sem investir, com a mesma intensidade, na sua preparação para liderar. E a liderança não surge por acaso, constrói-se. Constrói-se com formação, com exposição, com confiança e com oportunidades reais de decisão, condições essas que têm sido mais frequentemente associadas ao contexto masculino.

Esta foi a premissa que motivou a formação “Future Tech Leaders”, promovida pelo Departamento de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, no âmbito do Dia Mundial das Mulheres nas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Esta formação foi desenhada para apoiar alunas no desenvolvimento de competências críticas para o futuro, desde a construção de carreira ao bem-estar, passando pela compreensão das regras, muitas vezes invisíveis, do mundo empresarial.

Mais do que um evento, é um sinal claro de que não basta formar engenheiras, é preciso formar líderes. Este tipo de investimento não pode ser episódico. Tem de ser estrutural. Tem de estar integrado nos curricula, nas oportunidades extracurriculares, nos modelos de mentoria e na cultura das instituições. Tem de começar cedo e prolongar-se ao longo de todo o percurso académico e profissional.

Como presidente do Departamento de Engenharia Informática, vejo diariamente talento extraordinário nas nossas alunas. O que não podemos aceitar é que esse talento não se traduza, de forma proporcional, em influência e liderança porque, no final, a questão não é apenas quem participa no desenvolvimento da tecnologia, é quem decide a estratégia a seguir. Num mundo cada vez mais mediado por sistemas inteligentes, garantir que mais mulheres estão nos lugares de decisão não é apenas desejável, é indispensável.

Porque o futuro é o tempo e o espaço onde vamos passar o resto das nossas vidas, cabe-nos a responsabilidade de o construir de forma mais justa, mais inclusiva e verdadeiramente representativa das visões e anseios de todos.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico


© PÚBLICO