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A IA e a minha máquina de lavar loiça

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24.09.2026

Duas máquinas trabalham enquanto eu trabalho. Uma lava a loiça, a outra produz texto, sínteses e respostas. Ambas consomem água e eletricidade. Ambas prometem poupar tempo. A questão é saber quem fica com o tempo poupado, quem continua a assegurar o trabalho doméstico e quem está longe das salas onde se decide o futuro da tecnologia.

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Enquanto acompanhava o meu filho na semifinal da Olimpíadas da Inteligência Artificial (IA) em conversa com uma mãe (sim, nessa altura somos apenas as mães) conheci uma das definições mais divertidas sobre o que é a IA: “A IA não se pode evitar, é como uma Bimby.”

Fiquei a pensar sobre o assunto e parece-me que, comparando com um eletrodoméstico, a IA é mais parecida com uma máquina de lavar loiça. A comparação é imperfeita, mas esclarecedora. A máquina de lavar loiça executa uma tarefa — doméstica — delimitada e consome água e eletricidade. A IA embora consuma o mesmo tipo de recursos produz resultados muito diferentes, como é do conhecimento geral. A primeira tem consumos relativamente fáceis de medir por ciclo. Na segunda, a energia e a água variam com o modelo, equipamento, localização (quem sabe em breve no espaço), sistema de arrefecimento, composição elétrica e extensão da resposta. Ainda assim, ambas lembram uma verdade, nenhuma automação é imaterial.

A história da máquina de lavar loiça começa também por corrigir outra invisibilidade. Josephine Garis Cochran foi a mulher autora da primeira máquina prática e comercialmente bem-sucedida, patenteada nos Estados Unidos em 1886. O seu sistema usava pressão de água, princípio que permanece no equipamento moderno.

Com a computação, indiretamente a IA, é correto recordar que mulheres foram fundamentais na programação que tornou a computação eletrónica possível. As seis primeiras programadoras do primeiro computador e integrador numérico eletrónico (ENIAC), Kathleen McNulty Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances (Betty) Snyder Holberton, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum, tiveram de descobrir como configurar uma máquina sem linguagem de programação, manual adequado ou precedente.

Há uma ironia nesta genealogia. A programação foi inicialmente tratada como trabalho secundário e feminino. Quando ganhou prestígio, poder e remuneração, masculinizou-se (aliás como todas as atividades que ganham importância). Hoje, as mulheres continuam sub-representadas nos lugares técnicos e de decisão da IA, ao mesmo tempo que permanecem muito presentes no trabalho menos valorizado que alimenta os sistemas, como etiquetagem, transcrição, avaliação de respostas e moderação de conteúdos. O relatório do Instituto Europeu Igualdade de Género (EIGE) sobre IA e trabalho em plataformas avisa que estas tecnologias podem criar oportunidades, mas também reforçar estereótipos de género, segregação e discriminação.

A segunda semelhança está nos recursos. As máquinas de lavar loiça consumiam muito mais água e eletricidade do que as atuais. Segundo a Comissão Europeia, entre 1990 e 2020, as........

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