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Puxa a vida

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27.04.2026

Quando o meu avô não conseguia compreender qualquer coisa, quando a realidade parecia demasiado confusa e difícil de decifrar, o meu avô puxava para trás a boina que lhe cobria a careca, coçava a testa e dizia: “Puxa a vida…” Como se com estas palavras pudesse de alguma forma agarrar, ou antes puxar, um cordel que ainda o segurasse a uma lógica para a realidade.

Quando eu era adolescente e o meu avô caminhava aparentemente pacificado diante da confusão do mundo, era ele quem me levava muitas vezes ao liceu, na sua velha carrinha cor de mostarda, com que avançava aos solavancos, diante das buzinadelas dos outros condutores furiosos e apressados.

O meu avô morreu, há muito tempo, e nem por isso a realidade deixou de avançar, furiosa e apressada — e presumindo que o verbo “avançar” indicie sempre um movimento para diante, há no entanto coisas do tempo que parecem querer recuar, teimosas. O mundo aos solavancos como a carrinha mostarda.

Há uns dias voltei ao liceu. Fui convidada a fazer um ciclo de Encontros com Jovens Adolescentes de Escolas Secundárias, para os ouvir falar sobre o Amor Romântico e as Relações Amorosas, enquanto pesquisa para escrever uma peça de teatro a este respeito.

As visitas às escolas enchem-me sempre profundamente de esperança. Como se pudesse senti-la nos pulmões, quando inspiro: as conversas que tenho com os jovens excedem sempre as minhas expectativas pela forma tocante com que eles se envolvem, como se expressam e interrogam, como abordam áreas tão sensíveis de formas por vezes altamente sofisticadas, articuladas e profundas. Supor que esta é uma geração distraída ou alheada, é não escutar verdadeiramente as vozes que dela emergem. No entanto, escutá-la, ainda que sob um carácter informal, é também ao espaço onde questões verdadeiramente inquietantes assomam.

O último encontro em particular, aguçou a minha curiosidade.

Quando cheguei à porta do bloco de salas, a professora que me acompanhava advertiu-me: “Estes são difíceis. São muito........

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