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Por Tutatis!

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16.02.2026

A minha parte favorita das procissões religiosas que passavam à porta da casa da minha avó, quando eu era pequena, era as rifas que os paroquianos vendiam no final e que eu gananciosamente desembrulhava com uma devoção súbita, enquanto cobiçava prémios aos quais não atribuiria qualquer valor noutro contexto (ou não fossem os prémios mais do que bugigangas adquiridas por baixo custo nas extintas “lojas dos 300”), mas que ganhavam um súbito esplendor pelo facto de terem o estatuto de “troféu”. Pelo facto de a sua conquista ser da ordem do acaso, do aleatório. Como se ao desembrulhar uma rifa premiada, Deus (o próprio!) olhasse diretamente na minha direção, apontasse o seu grande e peludo dedo indicador e dissesse: “És tu! A feliz contemplada com um conjunto de tupperwares de vários tamanhos encaixados uns nos outros, e respetivas tampas!” — pelo menos era assim que eu imaginava… Há qualquer coisa no acaso, no triunfo aleatório inverso à lógica da meritocracia que, de uma forma incoerente, nos faz sentir especiais. “Eu? Escolhido pelo cosmos para ganhar dez euros na raspadinha Templo da Fortuna?! Devo ser realmente especial!”

Quanto à procissão em si, antes das rifas, parecia-me só um desfile maçador de vizinhos com ar solene, ante uma seleção musical repetitiva e monótona, a que era forçada a assistir, entediada, enquanto me procurava entreter fazendo corresponder os diversos vizinhos fiéis às personagens dos livros do Astérix. Lá estavam as correspondências certeiras: a sempre rabugenta Bonemine, a vizinha do lado da minha avó, que ocupava o dia numa ladainha de queixas sobre as mais variadas miudezas, desapontada com o marido e com o casamento. O veterano Agecanonix, um velho cheio de rugas e mazelas ( o vizinho que morava no casarão e era chefe de um departamento da função pública), casado com uma jovem sumptuosamente bela, nascida muitas décadas depois. O ferreiro Cétautomatix (o mecânico da oficina), constantemente em zaragatas com o vendedor de peixe Ordenalfabetix (que no caso vendia cassetes de música e VHS’s na feira). O Bardo........

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