Por Tutatis!
A minha parte favorita das procissões religiosas que passavam à porta da casa da minha avó, quando eu era pequena, era as rifas que os paroquianos vendiam no final e que eu gananciosamente desembrulhava com uma devoção súbita, enquanto cobiçava prémios aos quais não atribuiria qualquer valor noutro contexto (ou não fossem os prémios mais do que bugigangas adquiridas por baixo custo nas extintas “lojas dos 300”), mas que ganhavam um súbito esplendor pelo facto de terem o estatuto de “troféu”. Pelo facto de a sua conquista ser da ordem do acaso, do aleatório. Como se ao desembrulhar uma rifa premiada, Deus (o próprio!) olhasse diretamente na minha direção, apontasse o seu grande e peludo dedo indicador e dissesse: “És tu! A feliz contemplada com um conjunto de tupperwares de vários tamanhos encaixados uns nos outros, e respetivas tampas!” — pelo menos era assim que eu imaginava… Há qualquer coisa no acaso, no triunfo aleatório inverso à lógica da meritocracia que, de uma forma incoerente, nos faz sentir especiais. “Eu? Escolhido pelo cosmos para ganhar dez euros na raspadinha Templo da Fortuna?! Devo ser realmente especial!”
Quanto à procissão em si, antes das rifas, parecia-me só um desfile maçador de vizinhos com ar solene, ante uma seleção musical repetitiva e monótona, a que era forçada a assistir, entediada, enquanto me procurava entreter fazendo corresponder os diversos vizinhos fiéis às personagens dos livros do Astérix. Lá estavam as correspondências certeiras: a sempre rabugenta Bonemine, a vizinha do lado da minha avó, que ocupava o dia numa ladainha de queixas sobre as mais variadas miudezas, desapontada com o marido e com o casamento. O veterano Agecanonix, um velho cheio de rugas e mazelas ( o vizinho que morava no casarão e era chefe de um departamento da função pública), casado com uma jovem sumptuosamente bela, nascida muitas décadas depois. O ferreiro Cétautomatix (o mecânico da oficina), constantemente em zaragatas com o vendedor de peixe Ordenalfabetix (que no caso vendia cassetes de música e VHS’s na feira). O Bardo Assurancetourix, desafinado, desadequadamente infantilizado e inoportuno, como o chefe dos escuteiros que encabeçava a procissão. E, claro, todos os legionários romanos, de quem não sabia o nome, mas me pareciam esmagados pela condição de pertencerem ao exército de César, reduzidos a figurantes sem grande protagonismo, destinados a cumprirem as obrigações do Império: impostos, missas, pequenas reparações domésticas…
Enquanto os vizinhos cantavam “Avé Maria”, eu trauteava como os temíveis Gauleses um “Por Tutatis!” — e assim conseguia mitigar (para usar uma palavra da moda) os efeitos do ócio infantil, de ser uma entre muitas crianças a quem a lotaria cósmica e o determinismo reservaram o destino de pertencer à geração que cresceu numa época pré-tablet-com-desenhos-animados-gerados-por-IA.
Não me recordava destas liturgias de BD há algum tempo, mas calhou-me na rifa integrar, há dias, ainda que involuntariamente, um cortejo de três horas, que se formou pelas oito da manhã, num dos acessos à Ponte 25 de Abril. (O acaso é realmente uma coisa fascinante: se tivesse saído cinco minutos mais cedo de casa não teria sido premiada com um conjunto de veículos de vários tamanhos encaixados perfeitamente uns nos outros, e respetivos condutores). Uma autêntica procissão (do latim: procedere, "para ir adiante", "avançar") de carros-não-alegóricos que, ao contrário da intenção dos seus ocupantes, não procediam nem avançavam para lado nenhum.
Depois dos primeiros 55 minutos imobilizada numa rotunda ao volante do meu veículo de marca “gaulesa”, deu-se um espetáculo de pantomima expressionista entre mim e o condutor do veículo de trás (do latim: chico-esperto) que procurou passar à minha frente.
Nos restantes 125 minutos comi os ovos cozidos que tinha levado para o almoço, maquilhei-me, desenhei um bigode de Dali com o eyeliner, fiz macacadas através do vidro às crianças do carro ao lado, que me ignoraram com um ar solene em virtude dos seus tablets, apaguei o bigode, e ouvi a melodia repetitiva e monótona das diferentes estações de rádio e podcasts informativos, onde comentadores diversos analisavam o resultado das eleições “Estamos no ano 50 a.C.. Toda a Gália está ocupada pelos Romanos-Populistas-de-Direita-Radial… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis Gauleses resiste agora e sempre ao invasor…” e confirmavam invariavelmente como tinham acertado na mouche, ou errado propositadamente nas suas previsões para a segunda volta das presidenciais. No centésimo trocadilho com a palavra Seguro, decidi desligar o carro, para poupar gasolina e jogar pelo seguro. (Olha! Mais uma…)
À minha frente, o condutor de um ligeiro de passageiros e um outro de uma carrinha comercial avançaram para uma zaragata acerca do cobiçado território da faixa de rodagem da esquerda, delimitado pela fronteira externa de um traço contínuo. Numa clara disputa anti-e-pró-imigração, os dois envolveram-se numa contenda altamente polarizada sobre o pedaço da rotunda que se achavam no direito de ocupar. O condutor da carrinha comercial buzinava fervorosamente, numa atitude de rapper do videoclip de gangsters, enquanto o outro bufava enraivecido e vociferava através da nesga do vidro do carro, com aqueles dizeres que nos balões de BD se traduzem em: “!*!L*#∞×↓‡?ϖ*!!”
A disputa prometeu tornar-se verdadeiramente bárbara quando o primeiro condutor abriu a porta e, por consequência, o segundo também abriu a porta, como quem diz “Deixa-me só desapertar o cinto de segurança e apertar o cinto das calças que me estava a marcar as pregas da barriga e tive de aliviar, que já te conto das boas!” (Considerando a massa do primeiro e a agilidade do segundo, desejei, em virtude da segurança do condutor do ligeiro, que ele tivesse, tal como o Obélix, caído num caldeirão de poção mágica, ou caso contrário estaria o caldo entornado.) Felizmente começou a chover abundantemente, e toda a gente sabe que as demonstrações de testosterona e a virilidade — tal como o couro e a camurça — não se dão bem com chuva e os magnos gladiadores fecharam as respetivas portas, sem “veni”, nem “vidi”, nem “vici”… E lá ficaram empatados por mais duas horas, forçados a permanecer lado a lado, vidro com vidro, como dois encarcerados que se odeiam mas a quem o juiz decretou celas geminadas.
Quando a fila de trânsito finalmente recomeçou a andar, a passo de caracol, voltei a ligar o motor e quase fui abalroada por um condutor que decidiu avançar pela faixa no sentido contrário ao seu destino e atravessar um duplo traço contínuo, para não ter de estar imobilizado, como nós, essa tola legião de cumpridores da lei e pagantes de impostos. “Brutus!!!”, gritei (mas por outras palavras). E a procissão seguiu em marcha lenta enquanto as minhas pernas tremiam sobre os pedais.
“Por Tutatis!”, clamei, não me atrevendo a apelar às outras divindades, que imagino que nestes dias estarão certamente tão atulhadas, atarefadas e próximas de um burnout quanto os profissionais do SNS, os ministros em disfunções, e os restantes mortais. Suponho que o Gabinete de Crise do Olimpo esteja a abarrotar de requerimentos, impressos e despachos que se acumulam em cima de uma mesa, à medida que cá em baixo a geopolítica se transforma a um ritmo alucinante, a diplomacia faz jejum intermitente, a tecnologia avança em piloto automático, as epidemias de despotismo lastram…
Só naquela nesga de mundo que é o tabuleiro de acesso às portagens, naquele território equivalente a uma célula do mapa — se visto à lupa como na primeira página das aventuras de Astérix —, o desfile de personagens, conflitos e mundividências já se revelou extraordinariamente cartoonesco, quase tão mirabolante como a construção ficcional de Uderzo e Goscinny. E tal como Astérix e Obélix também nós temos partilhado de alguma forma o medo dos gauleses de que “o céu lhes caísse em cima da cabeça”.
Enquanto ouvia o bip da cobrança da Via Verde a anunciar que atravessava finalmente a ponte e aquele lapso temporal, considerei a força do acaso, a potência dos céus que paralisam cidades, e o poder revelador de uma procissão. Por Tutatis...
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
