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Não há nada mais sublime do que um bar de karaoke

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19.10.2026

Nada mais doce do que um bar de karaoke. Nada mais amargo do que um bar de karaoke. As canções repetem-se uma e outra vez, todas as noites, mutiladas, sem voz, só instrumentos. Sempre as mesmas, todas as noites.

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As luzes rosa-choque e vermelhas acendem-se e apagam-se no palco minúsculo, infantil, uma e outra vez. Uma e outra vez, uma boca laboriosa corre para apanhar as letras luminosas no ecrã. Os lábios debruçam-se sobre o microfone como se o quisessem engolir, num shot. Mas as palavras correm sempre à frente. Palavras certas no tempo certo, é um truque difícil de sacar…

When I was young / I never needed anyone/ And making love was just for fun / Those days are gone…

Nem vale a pena calcular a quantidade de bocas que já se encostaram ao microfone noite após noite. As mãos sedentas agarram o fio como se fosse um cordão umbilical a pulsar de oxigénio. Podia ser wireless. Mas não era a mesma coisa. Um karaoke que se preze tem cabos elétricos emaranhados nos pés.

A música é pop, gratuita, explícita, sem intenções veladas nem ambivalências. Sem rasteiras. Só fúria e exaltação. As paixões são primitivas, obscenas, desbocadas. O sofrimento é grosseiro, sem maneiras, a roçar o ordinário. Não há lugar para emoções polidas. Para sentimentos eruditos. No palco em miniatura o microfone troca de mãos. Troca de lábios. Uma garganta cheia de gana cobiça a atenção.

“Esta é para todos os apaixonados!” O amor é piroso, serve-se com palavras vulgares, de uma casta humilde, sem sonetos rendilhados nem ambiguidades, em partituras de música ligeira… (mas quem disse que os amores pirosos são “ligeiros”?)

Convocam-se ao palco todos os donos de corações partidos, como se solicita a presença do proprietário do veículo com a matrícula KJ-34-NH, no sistema de som do supermercado. Estão todos estacionados em segunda fila no bar de karaoke.

Um homem perfumado entra no bar, de chave do carro na mão. Primeiro entra o perfume, ele vem depois. Vem de camisa desabotoada, caixa torácica aberta, depilou o peito, engomou o blêizer, pronto a........

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