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À boleia do herói

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Ah! Lá vai ele … um herói. Ou uma heroína, é irrelevante, teríamos de ver mais ao perto.

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Atravessa a estrada no sinal verde para os peões mesmo que a estrada esteja completamente vazia e não haja ninguém por perto a esta hora da madrugada, porque solitário por natureza, solidário por convicção, não quer pôr ninguém em risco, não vá um carro aparecer, e ficar com o capô esmagado na sua tamanha comiseração. Levanta a mão. Pede boleia?

O herói, de capa esvoaçante ao pescoço, que pode muito bem ser só um lençol gasto a apertar-lhe o colarinho — que as noites solitárias também gastam os lençóis, deixam o tecido roçado e ressequido —, o lençol onde se deita e se aconchega num casulo, e que é a capa e cápsula com que voa cima dos céus.

Acima da impaciência dos condutores atrasados que buzinam no trânsito, acima da cólera dos infratores que aceleram no sinal amarelo, acima da selva de manguitos que trespassam as janelas dos carros como antenas irritadas… O herói elevado, duplamente homérico (com o virtuosismo de Homero e a ingenuidade do Homer Simpson), com a crença esfomeada de que vai mudar os semáforos que passarão a ser todos verdes, nem um vermelho a piscar, que lindo mundo seria, com os peões e os veículos pesados em perfeita sincronia, sem ninguém a pisar os calos de ninguém — o infantil sonho do herói!

O herói alimenta-se de poesia, não interessa se vem servida naqueles livros pesados que ficam a fazer braço de ferro com os bibelots nas prateleiras, se daquela que se encontra nos pacotes de café. Poesia é o suplemento probiótico do herói, anda com ela no nécessaire, junto à pasta de dentes e ao creme depilatório, que os heróis usam a pele lisinha para sentirem a realidade com mais intensidade — que um verdadeiro herói não foge às dolorosas investidas de má........

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