Os tambores da guerra e os pífaros da paz
1 As guerras e as suas atrocidades sempre repugnaram a maioria das pessoas. À margem da repugnância, ou convivendo com ela, nunca, apesar disso, faltaram homens capazes de conduzir campanhas e morticínios. Uns e outros, os repugnados e os nem por isso, coincidem facilmente na inevitabilidade de em certas alturas matar dois ou três inimigos – ou mesmo três milhões, em caso de necessidade. E sendo os massacres desagradáveis até para os seus executores mais habituados – porque se lembram que os jogos da guerra têm sempre uma 2ª volta – nunca faltaram teorizações que legitimassem razias, fomes e napalms. Assim, a ideia de uma guerra justa, qualidade equivalente a uma guerra aceitável ou mesmo a uma guerra virtuosa, está a ser melhorada desde o princípio do mundo. Em vão. Hoje, quando várias erupções de uma única guerra pontuam o mundo, os argumentos que a sustentam – uma guerra existencial do ponto de vista civilizacional, não de nenhum país em particular – defrontam-se outra vez com o chamado direito internacional. Não obstante o esforço de inúmeros pensadores a consistência de ambos os conceitos permanece tão incerta como a virtude de Messalina. As guerras, tal como a discussão sobre a sua legitimidade e legalidade, vão durar o mesmo infinito tempo. A justiça e a lei aplicadas ao fenómeno da guerra movem-se muito aquém da essência da guerra, nunca contribuíram para as evitar ou, pelo menos, torná-las elegantes e cavalheirescas.
Nenhuma revisão do direito internacional, nenhum aperfeiçoamento das regras que regulam a matança de pessoas em grande quantidade, fará com que uma guerra se torne um feito humano – tão natural como plantar uma árvore, fazer um filho ou escrever um livro. Nenhuma teoria ou pressuposto as fará justas ou tornará admissíveis as suas consequências: que um homem idoso morra em coma diabético só porque um conflito regional perturbou a comercialização de insulina ou, numa ilustração mais gasta dos malefícios da guerra, que uma criança seja esmagada pelos escombros da casa e da própria mãe. E no entanto as guerras têm sido uma constante do devir histórico, as pequenas e as grandes. Desde sempre os homens se têm confrontado com recurso à violência, tão engenhosa e argutamente quanto lhes foi possível em cada época.
A luta impiedosa intra-específica não é exclusiva dos homens, mas adquiriu na espécie humana uma importância que não existe em nenhuma outra espécie. As lutas com resultados letais são infrequentes noutros animais, são evitadas, servem para uma pontual estabilização de sociedades organizadas. Não são motivadas pelo ódio enquanto móbil cultural, não são permanentes e não se destinam a provocar mudanças. Pelo contrário, existem para garantir que nada muda – que um grupo de primatas ou de cervídeos continuará a viver no seu território da mesma maneira e com os mesmos recursos dos seus pais, avós e bisavós até ao tempo de Noé. Não é assim entre os humanos para os quais a guerra tem uma profunda componente cultural, é instrumental por antecipação e não como recurso e, sobretudo, tem mostrado eficácia enquanto utensílio da evolução histórica.
A curto prazo não é previsível qualquer atenuação drástica das razões da guerra. Eventualmente, virá a acontecer a muito longo prazo, quando a violência organizada atingir um nível de ineficácia suficiente. O progresso nos dispositivos letais foi grande e contínuo mas sempre a perder eficácia numa avaliação de escala e com uma degradação brutal da relação custo/efectividade. Uma tíbia de bisonte tinha uma taxa de eficácia muito superior a um Shahed e os seus custos de obtenção e utilização eram muito mais atractivos. O sofisticado arsenal da morte foi sempre confrontado e ultrapassado pelo progresso nas estratégias de defesa e evitamento – fugas e recuos, castelos, armamento de dissuasão, aço balístico ou a Iron Dome. Com igual importância, tem-se consolidado nas sociedades evoluídas a repulsa do sofrimento e da morte. Um comportamento cultural estabilizado e a recusa da violência proposto por religiões e ideologias poderão criar um ambiente selectivo favorável ao aparecimento de gerações com........
