Precisamos de falar, Iniciativa Liberal…
Há sensivelmente um ano apresentei-me como candidato à liderança da Iniciativa Liberal e disputei as eleições com o na altura líder do partido Rui Rocha. Sob a alçada do movimento Unidos pelo Liberalismo prometíamos uma reconfiguração do partido em várias dimensões, mas com um fito claro: tornar a Iniciativa Liberal num partido relevante na cena política nacional e com ambições governativas. Para isso, tínhamos metas claras e ambiciosas, pessoas competentes fora dos aparelhos partidários, vindos maioritariamente de ecossistemas empresariais. Foi um projeto muito enriquecedor, muito time consuming e, acima de tudo, muito reconfortante pelo resultado alcançado mediante toda a conjuntura à volta dessa candidatura.
Rui Rocha ganhou as eleições e legitimou-se enquanto líder do partido, demonstrando a nossa candidatura total abertura para colaborar com a direção do partido e de unir o partido em torno de um objetivo claro: colocar a IL num patamar de representatividade assinalável para o liberalismo em Portugal. Ninguém podia prever naquela Convenção de Fevereiro que passados pouco mais de 3 meses estaríamos a ir novamente às urnas para redefinir posições na Assembleia da República. Mas a política é assim mesmo, de onde menos se espera surgem surpresas e o partido teve rapidamente de se apressar para as eleições de maio. Dessa campanha ficam 2 memórias: a primeira foram os cartazes pouco imaginativos e pessoalizados na imagem de Rui Rocha, normalmente com uma palavra associada, ao arrepio do que eram os cartazes disruptivos da Iniciativa Liberal de divulgação das suas ideias, e a segunda memória foi a excessiva colagem à AD sob a liderança de Montenegro, com pessoas a serem posicionadas para futuros ministros, ou seja, oferecemos o partido de bandeja num cenário pós-eleitoral para o que Montenegro quisesse.
O eleitor português, ao contrário do que muito se escreve e diz por aí, normalmente faz escolhas sábias, e entre o voto para reforço da coligação de um jovem Governo e o voto para reforço de mais um parceiro júnior dessa coligação, os eleitores escolheram o primeiro. O resultado do partido ficou muito aquém do que o liberalismo em Portugal necessitava, merecia e podia ter atingido nessas eleições, e a consequência natural foi o seu presidente, retirando conclusões desse sufrágio, colocar o seu lugar à disposição. Seguiu-se a convocatória de emergência para uma nova Convenção eletiva, 6 meses após a última, com o objetivo de ter um presidente eleito nas eleições autárquicas de outubro.
Sem espaço temporal de manobra para o surgimento de mais candidaturas, a única candidatura apresentada foi a da direção do partido, que assim deu continuidade ao que estava a ser realizado anteriormente. Assim partimos para umas eleições Autárquicas completamente colados e coligados com a AD e só em casos muito específicos a marca IL teve algum destaque. Braga ou Castelo Branco, pelos excelentes resultados alcançados, foram uma miragem do que podia ser a Iniciativa Liberal, numas eleições que denotaram a falta de preparação e de sentido de crescimento de uma marca que até há poucos meses tinha tudo para vingar.
Trocámos lugares certos por incertos, trocando princípios e ideias por acenos de cabeça e fazendo com que todo o posicionamento anterior do partido fosse deixado cair por terra. O resultado foi a eleição de vários liberais por todos os cantos do país com a ambição de espalhar a mensagem liberal por todo o lado, enfrentando muitas vezes coligações com ambições distintas, e um partido ainda impreparado para dar resposta às solicitações dos nossos autarcas.
Depois das autárquicas seguiram-se as Presidenciais, que já há muito estavam na estrada. E com elas vieram todas as dúvidas que já há muito os liberais em Portugal tinham. Seria possível uma candidatura liberal chegar ao patamar dos 15%? Sempre acreditei que o potencial da Iniciativa Liberal a médio prazo seria os 15%, mas suportado num patamar anterior entre os 9 e os 11%. Já o dizia em Conselho Nacional em 2021. O resultado da primeira volta de João Cotrim Figueiredo veio provar que é possível, alavancado no resultado que anteriormente tinha conseguido nas eleições europeias de 2024 de mais de 9%. Também nessas eleições foi a cara da candidatura e confundiu-se onde começava a Iniciativa Liberal e acabava João Cotrim Figueiredo. Da campanha apoiada pelo partido para as Presidenciais muitas conclusões positivas se podem retirar, desde a forma como hoje em dia se faz campanha até ao posicionamento ideológico, passando naturalmente pela conversão de eleitorado de outros partidos. Creio que ficou um bom guião de aprendizagem para a Iniciativa Liberal.
Por outro lado, com esta campanha presidencial ficaram também latentes uma série de lacunas que o partido tem atualmente e que impedem o seu crescimento. À comunicação clara, objetiva, positiva e muitas vezes disruptiva que antes caraterizava o partido contrapõe-se o que atualmente o partido produz e publica. O alcance intergeracional e interpartidário de eleitorado com presença física e mensagem para todos os tipos de público é algo simples e que resulta num alargamento da base eleitoral sem muito esforço.
Como é lógico, é muito difícil de alcançar o carisma que João Cotrim Figueiredo apresenta, mas mais uma vez esta eleição veio evidenciar algo que já muitos acreditavam: Mariana Leitão é uma presidente a prazo. Não só o é por inaptidão para o cargo, vimos nas eleições autárquicas todo o seu potencial, como ficou provada a sua liderança errática e mal assessorada na gestão de crises.
Cara Iniciativa Liberal, é tempo de pensarmos no teu futuro e no que podes representar para a esperança dos portugueses numa vida melhor. Não te venho propor casamentos de conveniência porque o espaço liberal deve-se assumir como marca própria, disruptiva, marca de esperança e prosperidade. Uma marca não para algumas elites, mas para todos os que queiram subir na vida através do seu mérito e do seu trabalho. Venho-te propor que voltemos aos ideais liberais, mas com pragmatismo, com impacto real na vida dos portugueses, com medidas concretas e percetíveis. Porque não podemos resvalar para os jogos políticos decadentes do passado nem entrar na polarização da sociedade como muitos tentam no presente. Temos uma palavra importante de esperança para afirmar e temos de a fazer chegar já!
É então tempo de todos assumirmos as nossas responsabilidades para que um projeto tão inspirador como este não desvaneça por falta de ação, por excesso de conformismo ou por estar focado em projetos pessoais. É tempo de demonstrar que o liberalismo pode mesmo ser a solução para a crise de valores com que a sociedade se depara e que não é necessário criar mais estruturas para esse efeito. Tu foste criada com esse intuito e continuamos a acreditar que podes e mereces ser muito mais.
Porque acreditamos num Portugal onde os jovens possam construir o seu futuro e os menos jovens possam ter segurança no presente.
Porque acreditamos num Portugal de futuro e num Portugal com futuro.
Continuamos a acreditar em ti, Iniciativa Liberal!
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