Jonathan Sacks e o inestimável valor da diferença
Num mundo onde a intolerância prolifera e ameaça a vida de milhões de pessoas, a razão impele-nos a adotar uma posição digna e inclusiva, capaz de respeitar a diferença em todas as suas possíveis configurações. Esta exigência está na génese do presente artigo, cuja gravitação ocorre em torno de um dos mais influentes líderes religiosos do nosso tempo: Jonathan Sacks. No vasto legado intelectual que nos deixou — disseminado nas dezenas de obras que escreveu ao longo da sua vida —, o ecumenismo assume-se como um dos elementos constitutivos do seu pensamento.
O texto que aqui apresentamos consiste, portanto, numa análise propedêutica do capítulo “A universalidade da justiça, a particularidade do amor”, relativo à terceira parte da obra Não em Nome de Deus. Interpelaremos os pontos axiais do segmento mencionado e, de seguida, analisando os versículos bíblicos que Sacks invoca para demonstrar as singularidades do pensamento judaico, principiaremos uma reflexão que nos colocará na senda da problematização aduzida pelo autor. Por fim, partiremos rumo à explanação da visceralidade inerente ao compromisso religioso da comunidade judaica. Em todo o caso, a nossa argumentação assenta numa perspetiva puramente filosófica, sendo por isso desprovida de qualquer crença teológica.
Em “A universalidade da justiça, a particularidade do amor”, Sacks centra-se no “comportamento” particular do povo judeu face ao divino, procurando, em simultâneo, coadunar essa prerrogativa com a noção da universalidade de Deus. Nesse sentido, lança pertinentemente as seguintes questões: “Porque necessita Deus de escolher em primeiro lugar? (…) Porquê Abraão e não toda a gente? Porquê Israel e não toda a humanidade?”. A resposta a estas perguntas, embora não possa ser adiantada com leviandade, é a chave para a compreensão da aparente dissonância entre a universalidade da justiça e........
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