A Amplitude da Sexualidade na Psicanálise Clássica
No corpus doutrinário da psicanálise clássica a sexualidade começa por se manifestar oralmente, encontrando-se a sua génese na atividade de sucção do leite materno. Nesse sentido, quando a criança realiza o exercício de sucção sozinha — quer recorrendo ao seu corpo, quer utilizando um objeto —, o que está em causa é a tentativa de replicação do prazer associado àquela atividade. O comprazimento explica-se, em primeira instância, pelo preenchimento de uma necessidade fisiológica basilar: a alimentação. Segundo Freud, a sensação de aprazibilidade causada pela saciedade nutricional redunda no surgimento da pulsão sexual (o termo “pulsão” deve ser entendido como sinónimo de “impulso”). Quer isto dizer que no mesmo ato estão presentes funções distintas que permanecem interligadas. A sucção do leite materno permite que a criança atenda concomitantemente a duas necessidades fisiológicas diferenciadas; uma de natureza nutricional, e outra de natureza erógena. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, presentifica-se a ideia de que a finalidade da sexualidade infantil se resume à substituição do impulso interno por um estímulo externo capaz de o atenuar:
“O fim sexual do impulso na criança consiste na satisfação obtida pela excitação de determinada zona erógena. (…) O estado de necessidade, que exige o retorno da satisfação, revela-se de duas maneiras: em primeiro lugar, por um sentimento particular de tensão que tem algo de doloroso, e em seguida por uma excitação de origem central, um prurido projetado na zona erógena periférica. Pode dizer-se que o fim da sexualidade é substituir a sensação de excitação projetada na zona erógena por uma excitação exterior que a acalme e crie um sentimento de satisfação”.
Pese embora qualquer parte do corpo seja potencialmente erógena, Freud assevera que existem zonas que prefiguram a priori a função sexual — a genitália, o ânus e a região bucal. Devemos referenciar,........
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