A Amplitude da Sexualidade na Psicanálise Clássica
Por forma a compreender o cerne da problemática da sexualidade em Freud, é necessário determos a nossa atenção nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Entre os anos de 1905 e 1920 foram publicadas quatro edições distintas desta obra, sendo que em todas elas constam alterações significativas resultantes do aprofundamento teórico de três elementos: a evolução da teoria da libido e o desenvolvimento dos conceitos de “narcisismo” e de “dualismo pulsional”. Devemos ter em consideração que não existia, antes de Freud, uma abordagem clínica sistemática ao tema da sexualidade e, muito menos, uma tentativa de coadunação desta com os fenómenos psicopatológicos. Revela-se falacioso, como tal, interpelar a teoria freudiana da sexualidade como se a mesma se relacionasse apenas com os espectros da atividade e do prazer relativos ao aparelho genital, pois que o enfoque psicanalítico exorta a uma interpretação muito mais ampla. Freud assume, antes de mais, o pressuposto de que há uma relação entre o prazer associado às necessidades fisiológicas primordiais e determinados processos de excitabilidade corporal (tema que trataremos na segunda parte do ensaio). Esta relação — que é responsável pela edificação do amor sexual — mostra-se indispensável para o entendimento de diversas perturbações do foro psiquiátrico.
Para a psicanálise clássica a sexualidade é parte integrante da vida psíquica do homem, tanto no que respeita ao que nela há de normal, como também ao que possa existir de patológico. Por outras palavras, a psicanálise clássica estabelece um quadro conceptual em que a sexualidade não se restringe aos comportamentos de índole sexual; aliás, todo o interesse do ponto de vista clínico passa por analisar o relacionamento da esfera sexual com o dinamismo da psique. Deste modo, a perscrutação do comportamento sexual afigura-se vital para o estudo psicanalítico, na medida em que permite percecionar a origem da perversidade de certos comportamentos. Tal como Freud adverte no prefácio da........
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