Já não há cegonhas para ninguém!
Há dias, o biólogo americano Paul Ehrlich entregou a alma ao Criador (portanto, segundo ele próprio, a ninguém). Apetece-me dizer sobre esse doutor da mula ruça algo que nunca digo: já foi tarde. Aliás, partiu aos 93 anos, quando em geral o prazo de validade já está a fazer hora extra.
Erlich meteu a pata na poça até ao cocuruto, causando muito mal às sociedades que compraram a sua banha de cobra. Há outros pensadores pessimistas, como o austríaco Schopenhauer e o sul-africano David Benatar (autor de “Better Never Have Been”, para quem o custo/benefício do prazer/sofrimento reduz a vida a um conto do vigário). Mas Ehrlich era cientista numa era tecnocrática, e o estrago foi muito maior.
O recente censo do Brasil indica uma população de 231 milhões de habitantes, ínfimos 0,39% mais do que em 2024. Mas o número de brasileiros irá encolher a partir de 2042. Pela primeira vez os idosos deixaram de ser o menor segmento da população, e em 20 anos serão o maior deles. A população mais jovem (15 a 24 anos) diminui desde 2000. Em 2070, a idade média dos brasileiros, que em 2023 era de 34,8 anos, será de 52 anos.
Em 1941, fugindo do nazismo depois de uma escala em Lisboa, o austríaco judeu Stefan Zweig exilou-se no Rio de Janeiro, e publicou o livro “Brasil, o País do Futuro”, que foi assumido como lisonjeira alcunha nacional. 85 anos depois, e dada a corrupção endémica da política brasileira, teria sido mais oracular “Brasil, o País do Faturo”. Em 1942, Zweig matou-se com a sua mulher em Petrópolis.
Moral da história: os brasileiros já tinham idade para ter juízo. O motivo do envelhecimento é a queda na fertilidade nacional: em 1969, era de 6,28 filhos por mulher; hoje, é de 1,5 – inferior à Taxa de Reposição, que mantém o nível da população.
Em 1968, Ehrlich lançou o best seller The Population Bomb, brandindo o iminente apocalipse planetário pelo excesso de terráqueos. Ironicamente, o apelido do autor em alemão significa “honesto” e “verdadeiro”. O primeiro parágrafo é patibular: “A batalha para alimentar toda a humanidade acabou. Nas décadas de 1970 e 1980, centenas de milhões de pessoas morrerão à fome, mesmo que programas emergenciais comecem já. Nada pode deter a escalada da mortalidade mundial”.
Aos 36 anos, o lunático tornou-se VIP. Foi 20 vezes ao programa “Tonight Show”, de Johnny Carson. Recebeu uma bolsa “génio” da Fundação MacArthur, o Prêmio do Meio Ambiente da ONU e o da Academia Real Sueca de Ciências (concedido em áreas em que não há Nobel). Em1980, Ehrlich bajulou os países do outro lado da Cortina de Ferro, “por terem alcançado o crescimento populacional zero”. Em 1973, influenciou a sentença do caso Roe x Wade, favorável ao aborto nos EUA. E prescreveu o controlo da natalidade através da esterilização (deu o exemplo com a sua vasectomia aos 29 anos). No Brasil, sugestivamente, o ministério da Família é o mesmo do Combate à Fome.
Ehrlich errou mais do que Nostradamus. A esperança de vida aumentou imenso no mundo todo. OK: a população mundial mais que dobrou — de 3,6 mil milhões em 1968 para cerca de 8,2 mil milhões hoje. Apesar disso, a Terra está cada vez mais próspera. Em 2024, o PIB global per capita foi mais de duas vezes e meia maior do que em 1968. Em vez da fome de cão, vivemos na primeira sociedade da história em que os pobres são gordos (isto, e não a inanição, é um bocado chato). Mais pessoas morrem de indigestão que de fome. Talvez o fato de a especialidade de Ehrlich serem as borboletas explique alguma coisa.
O perigo era o contrário: o crescimento populacional global no ano passado foi o mais baixo desde 1950. Quase todos vivemos hoje em países com a fertilidade muito aquém do nível de reposição. Aventuramo-nos num território demográfico nunca visto desde a Peste Negra que assolou a Idade Média.
Em 2025 os EUA registaram a taxa de natalidade mais baixa de toda a história norte-americana. O número de famílias com menores de 18 anos caiu de 66% em 1970 para 35%. E mais de ¼ são unidades de uma só pessoa, contra apenas 8% em 1940. No Reino Unido, as taxas de natalidade e de casamento para mulheres com menos de 30 anos atingiram o nível mais baixo de sempre. Se persistirem, em 2080 a Grã-Bretanha precisará de só metade dos infantários e escolas primárias que tem hoje. Já este ano, o Royal Free Hospital informou que encerrará os centros de maternidade e neonatal, por ociosidade.
O panorama repete-se na maioria dos países ocidentais, bem como no Japão, China e o Sudeste Asiático. Em 2025, para combater o envelhecimento populacional, Tóquio aderiu à semana de trabalho de 4 dias. A taxa de natalidade japonesa é de 0,99. Para manter uma população estável, é necessário no mínimo 2,1. Desde 1990, o governo japonês mandou as empresas oferecerem licenças parentais suntuosas e aprovou miminhos em dinheiro aos pais. Já em 2026, a Câmara de Tóquio lançou a sua própria app de namoro – um empurrãozinho nos mais tímidos. Mas os subúrbios da cidade estão a tornar-se comunidades fantasmas. No Japão, as fraldas geriátricas já vendem bem mais do que as fraldas de bebés.
Na Coreia do Sul — o país com a menor TFR do mundo (0,7), e onde a natalidade cai pela metade a cada 20 anos — o número de bebés em 2100 será 93 por cento menor do que os nascidos em 2026. Nenhuma doença ou exército invasor conseguiu drenar um país tão radicalmente.
Quanto menos crianças nascem, menos futuros pais estão disponíveis para criar a próxima geração, e assim por diante. Pelo andar da carruagem, em breve a população ativa não conseguirá manter os serviços públicos: adeus, welfare state, segurança social, saúde pública, cuja conta alguém tem que pagar.
Criar filhos é caro; cuidar de crianças é complicado para mulheres que trabalham; a maternidade não é mais um ethos valorizado culturalmente, nem o casamento. Mas cuidado com as explicações unívocas: a natalidade começou a cair antes da pílula, e também cai em países onde muito menos mulheres trabalham fora do lar. Em países de alta renda, tendem a ser os mais ricos a ter menos bebés (perseguir a riqueza e o status vem à custa dos filhos).
Se dantes os jovens eram encorajados a casar e procriar (quem faz um filho, fá-lo por gosto!), agora a solteirice (dantes um opróbrio feminino) é celebrada (alguém ainda fica noivo?). Ecocatastrofistas choramingam que a Terra não suporta mais gente, e que de qualquer forma o planeta já está condenado pelo aquecimento global. Ter um filho será vê-lo carbonizar. E o passado, então? Todos os nossos ancestrais foram serial killers! Haja saúde mental.
O identitarismo encoraja homens e mulheres a considerarem-se as némesis um do outro, jamais parceiros fofinhos – e a família nuclear não passa de um opressivo ninho de víboras. A masculinidade é tóxica, e feminilidade corresponde a uma lavagem cerebral para galinhas poedeiras. O aborto é incontinente em todo o Ocidente, um contraceptivo como outro qualquer, uma pílula dos muitos dias seguintes. Só nos EUA houve cerca de 65 milhões de abortos nos últimos 50 anos (seis vezes a população portuguesa). Sem falar na eutanásia como panaceia, hoje um risco mortal para doentes crónicos, idosos, deficientes e meros deprimidos (os nazis também a aplicaram, no chamado programa Aktion T4, que resultou na morte de 300.000 pessoas entre 1939 e 1945).
Eu já ouvi que “ter filhos é coisa de direita” (portanto, excrementícia). Por outro lado, na Ásia o identitarismo é incipiente, e o outrora robusto familialismo (anseio por constituir família) também esmorece. Hoje a China tem 200 milhões de adultos solteiros, 60 milhões entre 20 e 40 anos de idade (a principal idade fértil). Com as barbas de molho, o PC Chinês (depois da política do filho único incitada por Ehrlich), agora encoraja a marmelada. Mas os jovens chineses, tal como os ocidentais, subscrevem o mantra “viva para si próprio”.
Na Europa, com a imigração em massa, as populações adventícias têm mais filhos do que as nativas. No Reino Unido, em 1951, 90% da população era branca – em 2023, 62%. Na Londres atual (a antiga capital do Ocidente), apenas 37% são brancos. O Presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, é filho de paquistaneses (e o da de Nova York, Zhoran Mamdani, de indiana e ugandense). Até 2024, o primeiro-ministro britânico era Rishi Sunack, de pais indianos. Olukemi (Kemi) Olufunto Adegoke Badenoch, filha de nigerianos, desde 2 de novembro de 2024 é a líder da Oposição e do partido Conservador. Assim, é cada vez mais difícil acusar o Ocidente de racismo estrutural, o que não impede muita gente de tentar. Menos preocupados com a fome, os que hoje não têm filhos continuam a odiar a civilização que produz a abundância.
O escritor francês Renaud Camus, dantes um ícone gay, publicou uma obra controversa, “Le Grand Remplacement’’, segundo o qual, por uma aritmética de tempo e espaço, imigrantes do Sul Global estão a substituir os autóctones no hemisfério norte – e a impingir as suas diferentes visões de mundo, por vezes pré-Iluministas. O ideólogo racialista afro-americano Ibram X Kendi acaba lançar um livro denunciando aquela tese como teoria da conspiração nazifascista (bocejo: o roto a falar do rasgado).
Nos saraus da elite ocidental, as fronteiras abertas são vistas não apenas como economicamente fixes, mas também inerentemente virtuosas – uma espécie de justiça poética (que inclui a imigração ilegal). Em contrapartida, as políticas pró-natalistas são estigmatizadas como etnonacionalistas ou chauvinistas – daí o tabu de abordar o colapso demográfico.
Porém a migração afeta a fertilidade não apenas nos destinos, mas também nos países de origem. Quando os jovens partem em busca de trabalho, em geral é antes de casarem e constituírem família – também deixam os parceiros para trás, que seguem-nos só anos depois. Essa separação interfere na maternidade, e reduz o número de filhos. Longe de resolver o problema da fertilidade, a migração pode só deslocá-lo.
É um fato que as religiões abraâmicas encorajam a natalidade, e que a atual Europa Ocidental (ao contrário das sociedades islâmicas e de Israel) já foi descrita como pós-cristã. Porém, se na África subsaariana a natalidade ainda paira acima do nível de reposição, também está a cair: na década de 1980, eram 8 filhos por família – agora, 4. E não se trata de exceção no Sul Global. A Índia superou a China como o país mais populoso do mundo, mas o pico de nascimentos no país foi há 25 anos, e desde então caiu 25%, e continua a desabar, com menos de 2 filhos por mulher.
Outro fator é insularidade da geração Z, fomentada pelos smartphones (surgidos há 20 anos) e as redes sociais. Se os jovens (que mal conhecem os seus amigos pessoalmente) não se encontram fisicamente, como irão ter filhos (impressora 3-D?)? Na semana passada, um tribunal nos EUA condenou por negligência criminosa a Meta e o YouTube, por criarem plataformas viciantes, com as suas ferramentas de rolagem infinita e algoritmos que induzem os utentes a querer voltar cada vez mais, especialmente os jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. As big techs foram comparadas às grandes empresas de tabaco, que estiveram sob escrutínio durante décadas, antes de o tabagismo ser universalmente reconhecido como cancerígeno.
Os jovens, quer no Oriente quer no Ocidente, vivem o que já foi designado como uma “recessão sexual” . Nos EUA, a porcentagem de pessoas sexualmente ativas situa-se no nível mais baixo dos últimos 60 anos (a copiosa pornografia na Internet – que exclui rejeições e inibições, e faz do erotismo só mais um videojogo – também tem culpa no cartório). Um terço dos jovens americanos do sexo masculino relataram em 2020 que não tiveram relações sexuais no ano anterior – assim como 25% das mulheres. No Japão, hoje quase metade dos homens e mulheres chegam virgens aos trinta anos (um escândalo na nossa era alegadamente priápica).
Outra implicação é a excruciante epidemia de solidão – seja de jovens ensimesmados, seja de idosos que não têm filhos nem netos. É um mal invisível: desenrola-se no sofá lá de casa. Os jovens não falam com ninguém porque não querem, os idosos porque não tem com quem falar.
Mas a culpa não é só da geração Z, ou da educação que lhes damos (ou não lhes damos). Stephen Shaw, que pesquisou 350 milhões de mulheres de 39 países, indica também a “infertilidade não planeada”: pessoas que vagamente adiam a paternidade/maternidade e lá pelos 40 anos descobrem o que correu mal. Não encontraram a pessoa certa, as prioridades foram outras, houve um divórcio, o parceiro não estava na mesma onda.
É verdade que nunca sabemos o que nos vai sair na rifa. Mas que raio de civilização engendramos, se as crianças são quando muito fardos a serem aturados, ou se reduzem a itens do narcisismo sentimental para pavonearmos no Instagram ? O que isso nos diz sobre a autoestima de uma sociedade que perde a vontade de perpetuar-se? Não será melhor já passarmos a bola para as geringonças da Inteligência Artificial? É que, sem seres humanos, parece um bocadinho difícil haver humanidade.
Pessoalmente, acho que a única grande vantagem da solidão é poder ir à casa de banho e deixar a porta aberta. Mas que o colapso demográfico nos sirva de lição contra aprendizes de feiticeiros como Ehrlich. Como já alertava Jacques Prévert, “não se deve deixar intelectuais brincarem com fósforos”.
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