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Factos e perceções

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01.04.2025

Continuemos com Jonathan Haidt e a sua hipótese, levantada no livro A mente justa, de que a moralidade é uma ferramenta adaptativa na medida em que possibilita aos homens cooperarem em grandes grupos e sem relação de parentesco, tornando-se, assim, mais capazes de garantir a sobrevivência.

Haidt recorre ao segundo livro d’A República, quando Platão coloca na boca de Gláucon a experiência do anel de Giges: esse anel permite que nos tornemos invisíveis e, por isso, capazes de cometer todos os atos que nos sejam favoráveis sem sermos vistos pelos outros. Segundo Gláucon, nenhum homem que possuísse um tal anel agiria com justiça:

“não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses.”

De acordo com esta hipótese, ninguém é justo por vontade própria, mas apenas por constrangimento. É o julgamento dos outros – é porque somos seres morais e moralistas – que nos obriga a adequar o nosso comportamento às regras morais da sociedade em que estamos inseridos. A hipótese de Gláucon está, assim, de acordo com a ideia de que a moralidade faz parte do nosso design evolutivo para permitir a cooperação: é mais importante ser visto como agindo moralmente do que ser moral pois é isso que gera confiança nos outros membros do grupo.

A perspetiva oposta – a de Platão, expressa por Sócrates no diálogo – é designada como perspetiva racionalista: a razão orienta-nos no conhecimento da justiça e o comportamento adequa-se a esse conhecimento. De acordo com Sócrates, é mais importante ser virtuoso do que parecer virtuoso – o que nos dá uma conceção intrigante da natureza humana: as pessoas seguiriam princípios que consideram justos mesmo que parecessem injustos aos olhos dos outros. Devemos, provavelmente, a esta visão de Platão a ideia de que os filósofos são pessoas excêntricas – embora não especialmente mais virtuosas do que os restantes mortais.

As religiões (sobretudo as monoteístas) revelam-se, neste sentido, mais perspicazes do que Platão: a existência de um Deus que tudo vê e tudo sabe torna o anel de Giges ineficaz. E daí que tudo seja possível após a morte de Deus: sem esse constrangimento moral, os limites ao comportamento do homem tornam-se frágeis – demasiado frágeis quando somos demasiado........

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