A falência do Estado
Já não confiamos no Leviatã. Aquele monstro bíblico que Thomas Hobbes invocou no século XVII para nos salvar de nós mesmos, para impor a ordem e evitar que a vida fosse “sórdida, brutal e curta”, está falido. Se olharmos com atenção para o que Zygmunt Bauman nos descreve no primeiro capítulo da sua Retrotopia, a conclusão é inescapável: o Estado, tal como o concebemos como garante último da segurança e detentor do monopólio da violência, ou abdicou do seu papel, ou já não o consegue desempenhar eficazmente, ou, pelo menos, de maneira que seja reconhecida como tal.
Durante décadas, vivemos na ilusão confortável de que o “processo civilizador” tinha domesticado a nossa besta interior. Acreditámos que tínhamos expulsado a violência para as margens, que a tínhamos delegado num Estado competente e eficaz. Mas, o que fizemos foi apenas varrer a sujidade para debaixo do tapete. A violência não desapareceu; foi “externalizada”, subcontratada ou empurrada para zonas onde não a queríamos ver. Agora, ela regressa, e o Estado, o nosso velho protetor, parece ser incapaz de conter a água dentro da barragem.
O que assistimos hoje é o desmantelamento da promessa moderna. Hoje, a violência é difusa e “desterritorializada”. Vemo-lo na guerra moderna, onde os exércitos convencionais dão lugar a drones e ataques de precisão, numa tentativa cobarde de fazer a guerra sem ocupar o terreno, de exercer poder sem assumir a responsabilidade administrativa.
O Leviatã queria ser pesado e imóvel; o poder de hoje quer ser leve e livre de encargos. Estamos a voltar a uma “guerra de todos contra todos”, mas com uma diferença fundamental: desta vez não é pela ausência de um Estado, mas pela presença de muitos “Leviatãs” minúsculos e incompetentes, ou pela simples demissão do principal.
A vida quotidiana transformou-se num campo de minas. Sabemos que existem explosivos, sabemos que vão rebentar, mas ninguém — muito menos o Estado — nos sabe dizer onde ou quando. Agora, é cada um por si. Somos nós, indivíduos atomizados, que temos de gerir os nossos próprios medos e trancar as nossas próprias portas.
Não deixa de ser uma ironia trágica. Entregámos a nossa liberdade em troca de segurança, conforme o contrato social Hobbesiano, para agora descobrirmos que ficámos sem ambas. O Estado, insolvente na sua função primordial, deixa-nos à mercê de uma violência “autotélica” — uma violência pelo prazer da violência, sem grandes motivos, nascida da humilhação e da impotência.
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