menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Os mortos vivos

10 1
07.03.2025

Em Portugal, a política, porventura a reboque de um politicamente indecente pacote governamental de sedução à comunicação social, até estava relativamente morta, isto até que, mesmo no marasmo modorrento de um impasse político entre três forças que, partilhando secretamente um interesse mútuo de não ir a votos, se tinham, até agora, equilibrado e anulado — AD, PS, Chega —, reduzido o espaço público à discussão de vírgulas e contrapontos nas propostas orçamentais, bem como a um ridículo apregoar em causa própria das virtudes públicas dos respectivos líderes partidários, subitamente, eis que senão quando, de fininho, um escândalo furou o pântano pasmaceiro e, primeiro em lume brando, depois em exponencial propagação, entrou em irremediável erupção, culminando por estes dias na desagradável constatação que o Primeiro-Ministro se revelou, no mínimo, incauto na gestão da sua transparência económica pessoal, coisa que, face aos elevadíssimos padrões de alvura ética política portuguesa, por puro oportunismo dos adversários e inabilidade do visado, acaba colocando agora em causa o periclitante equilíbrio político que vínhamos vivendo.

Admito a perplexidade. Não tanto pelo caso em si mesmo, atenção, que dado o meio e o historial não é extraordinário, mas pelo nível pindérico da coisa. Aliás, tudo em Portugal parece ter-se tornado progressivamente mais pelintra, irrelevante, sendo que agora até as formas de influenciar o poder político, desde logo o chefe do Governo, se imaginam reduzidas ao nível de umas avenças de quatro mil e quinhentos euros mensais que uma empresa familiar recebe em troca de serviços prestados. Mais embasbacante, portanto, parece-me a ideia peregrina de um Primeiro-Ministro — personalidade que, dadas as funções que ocupa, imaginamos de mente esperta e desembaraçada — de que nunca veria a sua vida devassada o suficiente para que o inédito, notável e brilhante plano de “passar as coisas para o nome da mulher e dos filhos” passasse incólume aos olhares mais inquisidores que incluem investigação, vasculho e coscuvilhice.

Juntando a isto a fragilidade política de alguém que parece colocar todos os ovos da sua semiscarúnfia estratégia política em perorar uns quantos slogans sobre temas conhecidos por serem assuntos chave para o Chega — coisas como a imigração e a segurança — ao mesmo tempo que continua o lento agonizar da cristalização económica e orçamental do PS — para não antagonizar eleitorado ao centro — e a vida política portuguesa torna-se absurdamente vazia de sentido ou significado. Ainda assim, aparentemente, a coisa até vai fazendo sucesso, tanto ou tão pouco que parece motivar o Primeiro-Ministro à eterna jogada de antecipação onde, por intermédio de uma moção de confiança, apela agora à necessária “clarificação” eleitoral. A evidente jogada, coisa típica do plenário e do conselho nacional partidário, não deixa de ser, no entanto, igualmente estranha, mesmo que para gente cujo único ensejo seja o convólvulo político. Afinal, que muda agora de facto na situação? Em não havendo explicações satisfatórias sobre as questões do Sr. Primeiro-Ministro, se estas o forçam a eleições, o facto de haver........

© Observador