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Os demónios do Dr. Montenegro

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21.03.2025

Em 1985, o tampão do impasse que bloqueava o sistema político era Mário Soares. Primeiro-Ministro da “maior maioria alguma vez gerada em Portugal” — o Bloco Central —, fruto da circunstancial orfandade política do PSD, controlava o processo político visando um objectivo: manter a estabilidade e criar as condições para vencer as presidenciais em 86. Também então, PS e PSD, acomodados pelo remanso do poder político, abriam espaços para novas forças partidárias, no caso o PRD, ou o fortalecimento de outras que trabalhavam a oportunidade, como o CDS de Lucas Pires.

Ainda assim, foi dentro do PSD que a situação se desbloqueou: por 57 votos, Cavaco Silva derrotou João Salgueiro, eventualmente rompeu o Bloco Central e venceu as decorrentes eleições de Outubro de 85. Então, munido de um programa reformador e liberalizante, Cavaco conseguiu ao longo de dois anos convencer os portugueses de que o rumo que preconizava era o melhor, recebendo como recompensa, quando o governo caiu em 87 pela mão do PRD, a maioria absoluta. Desde aí, os blocos políticos, grosso modo, ficaram definidos pelas linhas de 87: à direita, o PSD, maioritário e abrangendo as mais diversas famílias da direita, bem como o CDS, minoritário, variando a sua expressão eleitoral consoante a abrangência do primeiro; à esquerda, o PS representava todo o espaço (o PRD eclipsar-se-ia definitivamente em 91) entre o PSD e a extrema-esquerda anti-democrática.

2015 viria a ser o ano de todas as mudanças. Passos Coelho vence as eleições, mas António Costa forma governo com o apoio do BE e da CDU, rompendo, com consequências significativas, o cordão sanitário para a extrema-esquerda parlamentar. Desde logo, para quem nunca tinha até aí tido real responsabilidade governativa — o BE e a CDU — o presente foi envenenado: por um lado, aburguesaram com as migalhas e as oportunidades que Costa lhes deu; pelo outro, desiludiram os idealistas que neles imaginavam os agentes da implementação da revolução — entre um e outro, a irrelevância eleitoral foi a óbvia consequência, um risco que deveria ter sido mais evidente para os próprios, em particular, por razões históricas, para o PCP, mas que foi olimpicamente ignorado pela tentação sedutora, salivante, que lhes tolhia os sentidos ao prometer a morte política do grande vilão da esquerda contemporânea, Passos Coelho.

À direita, a mudança foi ainda mais relevante. Desde logo, o CDS imaginou na “parlamentarização” do sistema o fim do voto útil que, desde 87, o forçava à posição eternamente secundária na direita portuguesa. Esse sonho fazia sentido, e até poderia ter sido possível, não fosse a confluência de duas lideranças políticas absolutamente desastrosas: a de Assunção Cristas no CDS e a de Rui Rio no PSD. Cristas apostou-se a ultrapassar o PSD de Passos, chegando-se ao famigerado “centrão”, abrindo portas para conversa directa com o PS e reformulando o CDS na direita moderada que Passos, diariamente sovado e crucificado na comunicação social, não parecia conseguir representar.

Ora, o passo de dança, ambicioso, correu mal precisamente porque Passos Coelho, mais uma vez, trocou as voltas aos malabarismos maquiavélicos de Paulo Portas. Este, após o “irrevogável”, imaginava que aquele nunca sairia da........

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