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Bruxelas paga a traidores

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26.03.2026

Roma não paga a traidores, eis um dos nossos mitos ancestrais. Ou, pelo menos, não pagou a Audax, Ditalco e Tautalo pelos préstimos que permitiram o assassinato de Viriato e o fim da independência lusitana. Já os seus descendentes que por terras portuguesas hoje mandam, esses, continuam a tradição de não pagar grande coisa, apenas que por estes dias, e já desde há muito tempo, séculos mesmo, não apenas aos seus traidores, mas sobretudo aos seus melhores. Daí que estes, mais tarde ou mais cedo, acabem por emigrar, procurando noutros lados o que não encontram em casa.

A emigração, eis a grande característica secular dessa mesma pátria portuguesa, hoje em larga medida moribunda, esquelética e abandonada no seu desertificado interior, apinhada, senão mesmo ao molhe, nos arrabaldes das suas desordenadas cidades costeiras. Hoje, Portugal passa pelo tempo, nas palavras de Pessoa, como cadáver adiado, caminhando não se sabe para onde, nem porquê, com uma mão estendida, à espera do subsídio do Norte europeu que permita pagar as contas, e a outra, ao pescoço, intentando aliviar a coleira que a moderníssima Bruxelas, em nome da “liberdade”, “igualdade” e “fraternidade”, nos atou, assim forçando a vontade do dono — no caso, aquele que paga a festa.

Pode parecer exagero, mas não é. É certo que, escrutinadas as contas, e como alguns críticos mais afoitos da UE me alertavam em conversa há poucos dias, a transferência financeira europeia, apesar de volumosa, não é assim tanta, pelo menos quando metida no rol do saque fiscal que compõe o Orçamento de Estado português. Mas a coleira, respondi-lhes eu, é muito mais que o subsídio. É uma outra, escondida, que se prende com a promessa prestada nos mercados secundários, garantindo que os célebres juros da dívida pública não ultrapassam as margens suportadas pelos impostos extraídos aos portugueses e que alivia o governante da necessidade de reformar, cortar, afoitar, ou seja, governar.

Eis, aí, nas entrelinhas, a verdadeira mão de ferro que força a espinha dos governantes portugueses: queres a garantia de que, sempre que necessário, o BCE acode e compra a dívida que vos mantém os edifícios de pé, o ar condicionado nas repartições a funcionar e as centenas de milhar de burocratas a carimbar? É nesse momento que o tributo, por mais ridículo que seja, é pago a Bruxelas — e talvez assim se entenda como se conseguiu forçar um continente inteiro a enfiar o nariz numa cápsula de plástico a cada vez que se pretende um gole de água.

E o tributo não se fica pelo ridículo regulamentar, muito pelo contrário. É também, por exemplo, a mando da chefe de pandilha bruxelense — Von der Leyen —, apoiar o Digital Services Act. Tal como, em tom de reza, penitência ou adesão a culto esotérico, sempre de forma compungida, repetindo slogans e palavras de ordem a favor da protecção da “liberdade”, da “defesa da democracia” e da “legitimidade das instituições”, em coro que congrega primeiro-ministro, ministros e eurodeputados, todos abertamente conspirar e legislar precisamente contra a liberdade de expressão, a ordem democrática e a legitimidade institucional que afirmam........

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