A Síndrome de Lampedusa
No eterno romance de Tomasi de Lampedusa, Il Gatopardo, Tancredi Falconeri, sobrinho de Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, explica ao tio que, naquela altura de grande turbulência política que colocava em causa os privilégios da nobreza, para que tudo se mantivesse na mesma, ou seja, para que a sua posição social não mudasse, seria necessário que tudo parecesse ter mudado. A frase, no italiano original, “se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi” — traduzida para português: “se queremos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude” —, como todos os aparentes paradoxos, encarna na perfeição a junção da contradição literal com um sentido mais profundo, escondido, que aponta um caminho para um ensinamento mais verdadeiro.
Em boa verdade, esta frase, quer na versão da prosa de Lampedusa, quer na tradução cinematográfica de 1963 de Luschino Visconti, revela um sentido estético, poético, trágico mesmo, sobre a forma como a realidade política, mesmo que muitas vezes cunhada, inclusive com sangue, em nome de elevados princípios, grandes vontades, senão revoluções de radical e brutal violência, acaba sempre pervertida por uma de duas formas: pela capacidade do poder que está para, mesmo que se forçando a adaptar, quanto mais não seja na aparência, manter a sua posição; ou, em alternativa, pelo regresso do poder novo, revolucionário, aos hábitos do poder antigo que se visava transformar. O poder corrompe, explicava Lord Acton, e o poder absoluto corrompe absolutamente, acrescentava, o que significa que, ao contrário dos mistérios policiais do estilo Agatha Christie, na vida pura e dura da autoridade, não é tanto o “quem” que resolve o problema político, mas, sim, o “como”. Ou seja, mudar os actores não tende a resolver grande coisa pois que, sendo a vida dos homens aquilo que é, por mais que se mudem regulamentos, bandeiras e juramentos, no final, a vida corre como costuma correr, de cima para baixo, dos poderosos para os não-poderosos, o estado natural da Humanidade — assim foi antes de 1789 e, apesar das aparências, já há muito que assim voltou a ser no mundo dito “liberal”.
Outros italianos, menos românticos, mas igualmente ainda pensando nas artes, traduziram o axioma de Lampedusa como “muda o maestro, mas a música é sempre a mesma”, uma versão que os portugueses aproveitaram e, mais tarde, com o cunho de sóbria elegância que nos caracteriza, voltámos a traduzir pelo eterno “muda a merda, mas as moscas são sempre as mesmas”. Eis, aqui, em todo o seu esplendor, a dissolução do paradoxo e a condensação do axioma que, fluindo do inconsciente colectivo que tão bem sabe destilar o essencial do acessório, nos deixa com o fundamental — por mais que as coisas mudem, quem aproveita são sempre os mesmos. Os anglo-saxónicas, curiosamente, traduziram a ideia ao contrário, “same shit, different flies”, o que quando olhando para o seu significado mais profundo não deixa de fazer mais sentido — afinal as moscas vão mudando a uma velocidade muito superior do que o resultado político e económico do sistema social. Aliás, se é este que, mesmo que ao........
© Observador
