Mito: “Antes do Feminismo as Mulheres Não Podiam…”
Recentemente, tenho sido alvo de ataques virulentos por parte de feministas radicais devido aos artigos que venho publicando sobre a outra face do feminismo – aquela que insiste em dogmas inquestionáveis e que, com frequência, recorre à frase de efeito: “Se não fosse o feminismo, não estarias a escrever isto e não terias os teus artigos publicados”. Essa acusação, repetida como um mantra, pretende silenciar qualquer crítica conservadora cristã ao movimento, insinuando que as mulheres só podem expressar opiniões livres graças às “conquistas feministas”. Trata-se de uma falácia histórica e ideológica que ignora séculos de contributos femininos e atribui ao feminismo moderno um monopólio que nunca existiu. Como conservadora cristã, recuso-me a aceitar essa narrativa vitimista e revisionista. Pelo contrário: a liberdade de expressão, o trabalho e a liderança feminina precedem em muito o surgimento das ondas feministas dos séculos XIX e XX.
Em pleno século XXI, é imperativo desmascarar um dos mitos mais persistentes do feminismo moderno: a ideia de que, antes dos séculos XIX e XX, as mulheres viviam em total opressão, impedidas de escrever, trabalhar, governar, liderar ou destacar-se. Esta narrativa ignora a história real, a Bíblia e os pensadores conservadores. As mulheres sempre trabalharam, lideraram e se destacaram, mas as grandes mudanças advieram do capitalismo e do progresso tecnológico pós-Revolução Industrial — que, infelizmente, trouxeram exaustão, uma dupla jornada e a terceirização da educação dos filhos.
Apesar dessas hierarquias persistentes em todas as épocas — que o feminismo não eliminou e o comunismo apenas trocou por novas formas de opressão —, a revelação divina na Bíblia oferece uma visão mais profunda e verdadeira da dignidade humana. Contrariamente ao que críticos seculares e feministas radicais afirmam, a Escritura não reforça uma subjugação patriarcal absoluta; pelo contrário, é o primeiro texto da história que afirma explicitamente a igualdade essencial entre homem e mulher perante Deus, estabelecendo um valor inerente que vai além de classes sociais, poder terreno ou ideologias humanas.
Comecemos pela fonte mais antiga e sagrada: a Bíblia. Em Génesis 1:27, lemos: “Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Aqui, não há hierarquia ontológica; ambos são imagem e semelhança de Deus, com dignidade igual — um princípio que eleva a mulher a um patamar de valor eterno, independentemente de sua posição social ou do contexto histórico. Mas o feminismo frequentemente ignora este facto para pintar um quadro de opressão universal pré-moderna. A Bíblia está repleta de exemplos de mulheres que trabalhavam, lideravam e se destacavam muito antes de qualquer “vaga/onda” feminista, demonstrando que essa igualdade fundamental já operava na prática, mesmo em sociedades hierárquicas.
Considere Débora, descrita em Juízes 4-5 como profetisa, juíza e figura de autoridade em Israel num tempo de opressão. Em meio ao fracasso de liderança de Baraque — que, apesar da ordem directa de Deus por meio dela, hesitou e condicionou a sua obediência à presença da profetisa (Jz 4:8) —, Débora assumiu um papel proeminente: exortou-o à acção, acompanhou-o na batalha e profetizou a vitória, julgando o povo e compondo o cântico de louvor que celebra a intervenção divina. Essa liderança excepcional, surgida da timidez masculina, destaca o juízo de Deus sobre a falta de coragem dos homens, mas não estabelece um padrão normativo; ao contrário, reforça a expectativa bíblica de que os homens assumam a frente com ousadia (como Baraque eventualmente o fez, sendo incluído entre os heróis da fé em Hebreus 11:32). Ester, rainha persa, arriscou a vida para salvar o seu povo, exercendo influência política e diplomática que mudou o curso da história (Livro de Ester).”
A mulher virtuosa de Provérbios 31 é um hino ao trabalho feminino: ela “examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto do seu trabalho”, gere negócios, cuida da família e é elogiada pela sua sabedoria. No Novo Testamento, Lídia, uma negociante de púrpura mencionada em Actos 16:14-15, converte-se ao cristianismo e, com o coração aberto pelo Senhor, oferece a sua casa como local de hospitalidade e reunião para a igreja primitiva em Filipos — demonstrando generosidade económica e um papel de patrona e hospedeira que facilitou o crescimento da comunidade cristã, sem que isso implicasse autoridade eclesial oficial ou o ensino público sobre homens. Priscila, juntamente com o seu marido Áquila, toma a iniciativa de explicar a Apolo ‘o caminho de Deus com mais exatidão’ (Actos 18:26), num contexto privado e informal, corrigindo o seu entendimento sobre o baptismo — um acto de instrução mútua e correcção doutrinal em que ambos participam, sendo Priscila possivelmente a mais proeminente (dado o seu nome surgir em primeiro lugar), mas sempre em parceria conjugal e sem exercer autoridade docente pública ou pastoral sobre a assembleia. Estes exemplos ilustram que, no cristianismo primitivo, as mulheres podiam exercer uma influência significativa, hospitalidade, correcção privada e contributos espirituais valiosos, sempre em harmonia com a ordem complementar estabelecida por Deus — não como excepções que derrubam papéis diferenciados, mas como expressões normais da dignidade feminina reconhecida pelo Senhor, e não por agendas activistas modernas.
Martin van Creveld, em O Sexo Privilegiado, argumenta que a ideia de opressão sistemática das mulheres é um mito. Demonstra, com evidências históricas, que as mulheres sempre desfrutaram de privilégios que contrabalançavam qualquer desvantagem. Por exemplo, em sociedades antigas, as mulheres estavam isentas de combates militares e trabalhos pesados, enquanto os homens eram “os burros de carga da humanidade”. Van Creveld refere que, desde o Antigo Egipto até à Europa medieval, as mulheres geriam lares, comércios e propriedades. Ele refuta a noção feminista de que as mulheres eram “escravas” invisíveis: “Julgadas por quase qualquer critério, as mulheres são, e sempre foram, o sexo privilegiado”. Em vez de opressão, havia uma divisão natural de papéis que protegia as mulheres da brutalidade do mundo exterior, permitindo-lhes focar-se na família – o centro da sociedade cristã.
O feminismo actual rouba a voz às mulheres conservadoras históricas, promovendo uma “sobrecarga esmagadora” ao forçá-las a competir no mercado de trabalho enquanto ignora o valor do lar. O verdadeiro empoderamento feminino advém da complementaridade entre os sexos, e não da ideologia de género que dissolve as diferenças naturais. As mulheres sempre tiveram papéis activos, mas o feminismo transforma-as em vítimas perpétuas para fins políticos.
A opressão pré-feminista é um mito. O feminismo é uma ideologia subversiva que perverte a natureza humana. As mulheres sempre trabalharam — em explorações agrícolas, no comércio e no lar — mas o feminismo apropria-se de conquistas alheias. O movimento não libertou as mulheres; pelo contrário, escraviza-as a uma agenda ideológica que ataca a família e a fé. Os exemplos históricos de mulheres líderes em todo o mundo provam que o destaque feminino não dependia de Betty Friedan ou de Simone de Beauvoir.
G.K. Chesterton, o grande apologista católico, oferece uma perspectiva humorística e profunda em obras como O Que Está Errado com o Mundo (What’s Wrong with the World). Ele troça da ideia feminista de que as mulheres eram “escravas domésticas”: “As mulheres não eram mantidas em casa para serem limitadas; pelo contrário, eram mantidas em casa para serem expansivas”. Chesterton argumenta que o lar permite à mulher ser generalista – cozinheira, educadora, gestora – enquanto o homem é especialista num emprego monótono. Critica o feminismo por adoptar o modelo masculino como ideal, forçando as mulheres a “competir como escriturários” em vez de reinarem no lar. Uma das suas frases icónicas: “Dez mil mulheres marcharam pelas ruas gritando ‘Não aceitamos ditames’, e foram-se embora para se tornarem estenógrafas”. Para Chesterton, o feminismo não liberta; escraviza as mulheres ao mundo corporativo, ignorando a sua vocação natural.
Agora, o cerne da questão: o que realmente mudou?
Não foi o feminismo, mas a Revolução Industrial, o capitalismo e o avanço tecnológico. Antes do século XVIII, o trabalho era maioritariamente agrário e doméstico. As mulheres trabalhavam em casa, tecendo, cozinhando, educando os filhos – tarefas árduas, mas integradas na família. Com a industrialização, surgiram fábricas que exigiam mão de obra barata. Inicialmente, mulheres e crianças foram exploradas em condições desumanas, o que levou à exaustão e ao esgotamento. Como nota van Creveld, isto não foi “libertação”; foi exploração capitalista. O desenvolvimento tecnológico – máquinas, eletrodomésticos, automação – reduziu o esforço físico, criando empregos “leves” em escritórios e serviços. O capitalismo abriu portas para o trabalho remunerado fora de casa, mas a que custo?
As mulheres enfrentam agora uma dupla jornada: carreira e lar, o que conduz à “sobrecarga esmagadora”. Pior ainda, esta mudança terceirizou a educação dos filhos. Creches, escolas estatais e amas assumiram o papel materno, enfraquecendo os laços familiares – o oposto do modelo bíblico onde a mãe é central (Provérbios 31). O feminismo reivindica estes avanços como seus, mas eles resultaram do progresso económico, e não de manifestos. Como muitos argumentam, o feminismo é uma “perversão” que utiliza estas mudanças para promover o aborto, o divórcio facilitado e a ideologia de género, conduzindo à solidão e ao declínio demográfico.
Em conclusão, o mito de que, antes do feminismo, as mulheres nada podiam fazer é uma mentira ideológica. Da Bíblia até aos nossos dias, vemos que as mulheres sempre foram valorizadas, trabalharam e lideraram. O que o feminismo trouxe foi divisão, exaustão e a erosão da família. Como cristãs conservadoras, defendemos a igualdade na dignidade, mas com papéis complementares.
Que as mulheres que assim o desejarem regressem ao centro do lar, não como prisioneiras, mas como rainhas — pois é aí que reside o verdadeiro poder. E que os ataques daqueles que insistem no dogma da dependência feminista sirvam apenas para reforçar a necessidade de uma visão mais verdadeira, voluntária e libertadora da feminilidade.
Receba um alerta sempre que Maria Helena Costa publique um novo artigo.
