Já poderei dizer que gostei da prisão de Maduro?
Sábado de manhã fiquei contente – muito contente. Não há forma de esconder os nossos sentimentos: o fim de um ditador é sempre motivo para celebração. Repito: sempre.
Bem sei que não foi essa a regra em Portugal. Em Portugal hesitou-se ou condenou-se. Hipocritamente, ninguém se colocou abertamente do lado do ditador (não segui com atenção a posição do PCP), mas de forma igualmente sonsa todos, ou quase todos, trataram de imediatamente falar do “direito internacional”, da “carta das Nações Unidas” ou da “necessidade de contenção”. Finos analistas acrescentaram logo que assim os Estados Unidos se colocavam na mesma situação da Rússia ao invadir a Ucrânia (nem sei quantos pontos de exclamação acrescentar…) ou então que assim esses mesmos Estados Unidos estavam a dar luz verde à China para invadir Taiwan. Tudo isto dito com ar muito sério e “profissional”, com aquela pose de superioridade moral que os “analistas” gostam de exibir.
Vamos lá ver se nos entendemos: boa parte destas reacções é apenas explicável pelo conhecido TDS, isto é, “Trump Derangement Syndrome”. Ou seja, pelo pressuposto de que tudo o que Trump faça está mal feito, ou mesmo pelo axioma de que tudo os Estados Unidos façam está mal feito.
Se sairmos destes quadros mentais redutores não é possível deixar saudar o fim de um ditador (à ditadura já lá iremos) e de nos interrogarmos seriamente, e sem preconceitos nem idealismos estéreis, sobre as regras deste mundo em que vivemos (mesmo lamentando e criticando alguns dos comentários de Trump feitos este sábado).
Começando por Maduro. Tudo o que possa ser dito sobre o seu regime peca seguramente por defeito. Estamos a falar de alguém que roubou duas eleições presidenciais, a última das quais de forma tão obscena que nenhuma democracia reconheceu a legitimidade do seu regime. Estamos a falar de alguém que levou o seu país à miséria mais extrema, provocando em 12 anos uma queda de 80% do seu produto interno bruto apesar das imensas riquezas naturais com que fora bafejado (a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo de mundo, superiores mesmo às da Arábia Saudita). Estamos por fim a falar de alguém que levou ao exílio um quarto da população do seu país – oito milhões de venezuelanos fugiram do chavismo-madurismo, uma proporção de deslocados que supera mesmo a da Síria.
E se à superfície a elite do regime se apresenta, ou apresentava, como revolucionária, socialista e “bolivarianista”, na prática estamos a falar de uma oligarquia envolvida no narcotráfico e na pilhagem dos recursos naturais, uma oligarquia que depois envia os seus filhos mimados para ter vida de nababos em cidades como Madrid.
Nada se aproveita nesta gente, pelo que só posso estar com os venuzuelanos exilados........
