Marc Carney: do merceeiro de Havel ao banqueiro de Davos
O discurso de Mark Carney em Davos (20 de janeiro de 2026) foi saudado pela comunicação social liberal-progressista como exemplar, corajoso e lúcido. Não o é. Trata-se da mais recente e sofisticada tentativa do liberalismo progressista de sobreviver ao colapso da ordem que ele próprio erigiu e de que beneficiou durante décadas. O primeiro ministro do Canadá anuncia a morte da “ordem internacional baseada em regras” como se descrevesse um acidente inevitável, uma “rupture, not a transition”, o fim de uma “pleasant fiction”. Na realidade, fala do fracasso histórico do seu próprio projeto ideológico. O liberalismo progressista não caiu por traição; caiu por ter sido aplicado na íntegra. Trump e outros fenómenos são efeitos, não causas.
Aqueles que hoje lamentam a “nova realidade brutal” são os principais arquitetos do desastre. Durante décadas, prometeram globalização regulada, justa, inclusiva e pacificadora. Entregaram desindustrialização, erosão das soberanias, dependências estratégicas letais, fragmentação social, erosão cultural e uma oligarquia tecnocrática cada vez mais desligada dos povos. A “ordem baseada em regras” nunca foi universal: foi hierarquia disfarçada, exceções convenientes para os fortes, e moral seletiva administrada por elites financeiras, jurídicas e mediáticas. Carney reconhece agora que essa ordem acabou, “the old order is not coming back”, mas falta-lhe a honestidade de admitir que foi ela própria que destruiu a credibilidade da regra. A “nova ordem” que acena não é renovação; é a velha ordem a tentar sobreviver num mundo........
