O jogador de xadrez
O xadrez, dizia o meu avô, ou talvez não dissesse e as palavras às vezes nascem na cabeça da gente e não na boca dos outros, é coisa para levar o tempo inteiro, mesmo com o relógio a bater compassos de funeral ou marcha nupcial, é um tempo sem fim, a não ser acaso se acabe quanto há de nós antes.
Duas horas, dizia, ou pensava eu dizer o meu avô, e nessas duas horas — de quê? — de guerra, de paz, de silêncio e o mar ao fundo ou o comboio a passar ao longe ou talvez apenas o tic-tac da velha cozinha a encher as paredes de murmúrios.
Duas horas para conversar sem pressa, para os dedos roçarem as peças e a mão do avô, mais dura e quente, a descansar sobre o tabuleiro, como se segurasse um segredo ainda hoje por contar.
E depois, silêncio outra vez, como se as palavras fossem interditas por decreto de xadrez ou talvez apenas porque assim convém aos homens — o falarem quando não é preciso e calarem-se quando dói.
PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR
Cada peão avançava, e ele, o avô, do outro lado, a esperar, sem dizer nada, ou se dissesse eu não ouvia e a gente quando é miúdo não escuta.
Pensava o avô na jogada seguinte enquanto eu........
