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O que faz de nós portugueses?

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O que é que define verdadeiramente um português como português? Trata-se de uma questão complexa, mas, nos tempos que correm, torna-se mais pertinente do que nunca. A significativa imigração de populações oriundas de fora do espaço civilizacional ocidental, que Portugal tem vindo a receber nos últimos anos, trouxe este debate para a discussão pública. O mesmo fenómeno já ocorreu no passado noutros países do mundo ocidental. Quando confrontadas com vagas migratórias compostas por pessoas que não partilham as mesmas origens, a mesma religião ou os mesmos códigos de comportamento social, torna-se inevitável colocar uma questão fundamental: quem sou eu em relação ao “outro” e o que me distingue desse “outro”?

Um tema tão complexo merece ser tratado com o devido respeito e com uma certa gravidade. No entanto, alguns dos textos que li em jornais portugueses abordam o assunto com tal leviandade que fiquei realmente surpreendido. Para muitos articulistas portugueses, se um estrangeiro que chegou a Portugal há seis meses for capaz de dizer “Gosto de Portugal”, vestir uma camisola do CR7 e servir no seu restaurante um prato chamado “chop suey à transmontana”, já é considerado português. E a conversa termina aí. Quem discordar será, inevitavelmente, rotulado de racista, xenófobo, descendente directo de fascistas, de nacional-socialistas e, quem sabe, até de salazaristas. Neste contexto, eu, que pratico artes marciais e desportos de combate há mais de 15 anos, que sou fã das animações de Hayao Miyazaki e sei dizer “Arigato”, se for viver para o Japão, torno-me japonês? Não, é infinitamente mais complexo. Mesmo que lá viva durante 10 anos, aprenda os seus usos e costumes e mude o meu nome para “Jérémy Tanaka”, serei sempre meio português, meio francês. Porque tenho um pai português de gema e uma mãe francesa de gema. Porque fui educado por pais que me transmitiram tanto os modos como as maneiras portuguesas e francesas. Porque a longa memória da Europa reside em mim — na minha mente, no meu pensamento, na minha forma de ver e compreender o mundo, o amor, a coragem, a honra, o sacrifício e tantas outras coisas.

Mesmo que amanhã o governo português decida retirar-me a nacionalidade portuguesa, serei sempre português. E, mesmo que tenha de lutar contra a complexa administração francesa para recuperar a nacionalidade francesa (que perdi por não ter renovado o bilhete de identidade aos 18 anos), serei sempre francês. Na verdade, um cartão de cidadão não tem assim tanta importância. Não, o que realmente importa para esta discussão é a identidade. Por isso, a pergunta que devemos colocar é: o que é a identidade portuguesa? Não tenho a pretensão de responder a esta questão de forma definitiva, mas proponho que tentemos, juntos, reflectir sobre o assunto. E, para reflectirmos sobre este tema, seremos obrigados a responder, antes de mais, à pergunta fundamental: o que é a identidade?

A identidade é, de facto, um conceito complexo, mas essencial para a nossa existência. Um homem sem identidade acaba por ser um homem perdido. Milhões de ocidentais vivem hoje nesse estado de perda porque certas elites tentaram apagar as diversas identidades que constituem a Civilização Ocidental. Na mitologia grega, dizia-se que, quando os deuses queriam vingar-se de um povo, apagavam-lhe a memória. Assim, um povo atingido por esta terrível maldição estaria condenado ao desaparecimento. De facto, certos intelectuais marxistas influentes, durante o Maio de 68 – que, é sempre importante recordar, não foi um movimento exclusivamente francês, mas sim ocidental – atacaram a longa memória das nações ocidentais. Foi a primeira batalha daquilo a que, em França, chamamos déconstructionnisme: desconstruir os mitos nacionais, as histórias nacionais, as culturas nacionais, para tornar os povos amnésicos e poder moldá-los à vontade, à semelhança da destruição sistemática da cultura milenar chinesa levada a cabo pelos Guardas Vermelhos na China maoísta, durante a terrível e sangrenta Revolução Cultural.

Assim sendo, a História das nações ocidentais seria, supostamente, racista; as nossas leis seriam, supostamente, racistas; a nossa ciência seria, supostamente, racista; até a música clássica ocidental seria racista… Têm dúvidas? Todos os compositores de música clássica eram brancos, de Mozart a Beethoven, e até a própria forma de transcrever a música foi considerada racista e colonialista por professores da Universidade de Oxford há alguns anos (fonte). A rádio francesa France Culture, dominada por uma visão wokista há já alguns anos, propôs um programa no qual pseudo-investigadores afirmavam que, se as estátuas gregas eram brancas, era pelo simples facto de o Ocidente sempre ter sido racista (fonte).

Eis a razão de o tema da identidade ser tão crucial: permite-nos sobreviver num mundo que parece estar a tornar-se insano. A identidade é uma bússola tanto para cada indivíduo como para os povos, pois, colectivamente, ajuda-nos e orienta-nos. Primeiramente, recorrendo ao pensamento do grande intelectual francês Alain de Benoist, podemos afirmar que todos nós possuímos dois tipos de identidade: a individual e a colectiva. A identidade individual é a mais simples de definir: as características biológicas, psicológicas, sociais, económicas, familiares e sexuais de cada um de nós. Mas, para além da nossa identidade individual, que é exclusivamente nossa, todos nós pertencemos a uma identidade colectiva, aquela que é partilhada por um povo. Alguns podem ter mais do que uma identidade colectiva. E é aqui que entramos no cerne da questão, mas também na parte que realmente nos interessa.

Contrariamente ao que li em muitos artigos, a........

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