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O Mercado da Indignação 

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04.01.2026

I. Os pressupostos de um oculto mercado

Um pouco por toda a parte, a indignação voltou a desempenhar um papel relevante na agenda mediática.

Numa adaptação moderada, porque os tempos são felizmente distintos, os movimentos de indignados recordam-nos o período em que, sob os ecos da crise das dívidas soberanas, os movimentos de contestação ocupavam, então com grande fulgor, o centro do debate e as ruas das principais cidades portuguesas e europeias.

No entanto, essa mesma indignação, outrora vista como uma reação espontânea e assente num forte pendor ideológico – quase sempre por parte da esquerda política – assume, agora em definitivo, a feição de um verdadeiro mercado, no qual o valor de cada causa passou a ser medido pela sua capacidade de gerar, alternativa ou conjugadamente, tração algorítmica e retorno reputacional.

Afinal de contas, neste verdadeiro mercado, cada vez menos oculto, tudo é um meio de revelação da indignação, pautando-se o seu funcionamento, nada mais nada menos, senão pela ancestral confluência entre oferta e procura.

II. O marketing das virtudes

Uma das características mais evidentes do mercado da indignação pode derivar-se do conceito de “virtue signaling” – particularmente popularizado pela esquerda política, tanto na Europa como nos Estados Unidos da América.

No essencial, está em causa um tipo particular de manifesto público em prol de causas particularmente populares e quase sempre ligadas à conjuntura, todavia sem que, de forma efetiva, exista um compromisso real com a própria causa – no limite, falamos de causas que, pela sua própria popularidade e abrangência, se tornam facilmente apropriáveis pelos participantes no mercado da indignação.

Sendo certo que o “virtue........

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