A “Uberização” da Economia Portuguesa
Infelizes regressos a um modelo caduco
Em Portugal, existe uma invulgar capacidade, por parte de personalidades públicas ou do próprio cidadão comum, para transformar sinais evidentes de fragilidade ou decadência em narrativas de sucesso.
A este nível, a “uberização” da economia portuguesa, que serve de leitmotiv ao presente artigo, procura aludir ao exemplo mais acabado de uma crescente ilusão coletiva, projetada sobre o estado atual de parte da economia portuguesa.
À superfície, temos uma economia espantosamente dinâmica: todos os dias abrem novas hamburguerias, pizzarias, cafetarias, empresas de entrega ao domicílio, com centenas de estafetas em circulação permanente, novas aplicações digitais, restaurantes que nascem e desaparecem à velocidade das modas urbanas.
Tudo parece mexer e é apresentado como moderno, cosmopolita e fancy. Infelizmente, em demasiados setores de atividade, a economia portuguesa está ancorada num equívoco, senão mesmo numa fantasia.
Durante várias décadas, habituámo-nos a uma economia pouco capitalizada, demasiado dependente de setores protegidos – quase sempre mal, pelo Estado –, de serviços indiferenciados, de turismo, de restauração e, em resultado, temos pequenas e algumas médias empresas incapazes de escalar, inovar ou competir por diferenciais de produtividade.
O problema não está na existência destes setores, que obviamente são legítimos, úteis e até mesmo indispensáveis ao quotidiano de qualquer cidadão.
Pelo contrário, o problema está, e continua a estar, em fazer deles a espinha dorsal de uma economia e, por esta via, de um modelo de desenvolvimento.
Mais recentemente, a nova face deste velho e caduco modelo, que apenas nos pormenores dá a aparência de sofisticação e novidade, tornou-se particularmente visível nas principais cidades do país.
No caso particular de Lisboa, poder-se-á dizer, sem hesitações, que está transformada num laboratório vivo que orbita em torno de uma oferta quase ilimitada de serviços baratos: comida pronta, entregas permanentes, pequenos comércios indiferenciados, restauração de rotação ultrarrápida, turismo de consumo imediato e massificado, de entre outros.
Sem surpresa, para que tudo isto funcione como uma autêntica orquestra, é necessário um contingente laboral disponível, igualmente barato e facilmente substituível.
Como é sobejamente conhecido, esse contingente tem sido, em larga medida, composto por cidadãos imigrantes oriundos de países com níveis médios de rendimento bastante inferiores ao português.
Poderá o leitor........
