As mulheres não estão cegas, estão fartas
As mulheres não estão cegas. Cegueira é o que menos existe. O que há, hoje, é uma nitidez brutal: jornadas longas, casas que continuam a funcionar à custa de trabalho invisível, relações onde a maturidade emocional é opcional para uns e obrigatória para outras. Mesmo assim, insiste‑se na narrativa conveniente de que “as mulheres andam cegas”, “não querem compromissos”, “exigem demais”. É uma desculpa confortável: transforma uma mudança estrutural num capricho feminino. Mas o país real desmente essa fantasia todos os dias.
Durante décadas, repetiu‑se que “as mulheres mudaram e os homens não acompanharam”. A frase tornou‑se slogan, mas raramente se assume o que ela implica: as mulheres avançaram porque lhes foi exigido; muitos homens ficaram onde estavam porque o modelo social continuou a protegê‑los. Em 1991, pouco mais de 105 mil mulheres frequentavam o ensino superior. Hoje são quase 250 mil. Tornaram‑se maioria nas universidades há mais de vinte anos e lideram em todos os níveis de formação. A autonomia feminina não é ideologia, é estatística.
Eu própria sou exemplo disso. Casei tarde, fui mãe perto dos 40, construí a minha carreira antes de construir uma família. Não por desinteresse pelas relações, mas porque aprendi cedo que a liberdade só é real quando não depende da boa vontade de ninguém. E porque percebi, como tantas outras mulheres, que entrar numa relação desequilibrada é entrar numa vida que encolhe.
A incoerência é gritante: trabalhamos 40 horas por semana e continuamos a assegurar a maior parte dos afazeres familiares. Não queremos ser sustentadas, mas também não aceitamos sustentar emocional, económica ou socialmente um adulto que nunca aprendeu a sê‑lo. E, ainda assim, espera‑se que agradeçamos.
E aqui está o ponto que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta: a educação dos homens continua, maioritariamente, a ser feita por mulheres, mães, avós, educadoras, professoras, que, muitas vezes sem se aperceberem, educam rapazes e raparigas de forma diferente. Autonomia para elas, indulgência para eles. Responsabilidade para elas, desculpas para eles. Ensinaram‑nos a ser responsáveis; ensinaram‑nos a eles a ser cuidados. Este é o erro estrutural que se reproduz geração após geração: mulheres a formar homens para um mundo que já não existe, mas que eles insistem em habitar.
E nada disto é novo. Gil Vicente já o tinha percebido há quinhentos anos. A Farsa de Inês Pereira expõe o mesmo mecanismo: uma jovem ensinada a escolher entre dois modelos de homem, o “asno que leve” e o “cavalo que derrube”. Inês rejeita o simples Pêro Marques e escolhe o escudeiro Brás da Mata, convencida de que a astúcia masculina lhe dará liberdade. O resultado é o oposto: casa com um tirano que a vigia, a encerra e a reduz a propriedade. Quando finalmente se vê livre dele, regressa ao “asno” que, apesar de limitado, não a derruba, e que, na cena final, a carrega às costas enquanto ela segue o seu próprio caminho. A farsa é cómica; o padrão é trágico. Inês não escolhe liberdade: escolhe entre dois formatos de submissão. Porque foi educada para isso.
O que está em causa não é o amor. É a assimetria que transforma mulheres em gestoras de vidas alheias. A pergunta é simples e desconfortável: quem quer substituir a mãe de alguém?
Quando uma mulher reconhece esse padrão, muitas vezes ao observar a dinâmica familiar do parceiro, não está a rejeitar a relação. Está a recusar a função. E essa recusa tem consequências: menos casamentos, maternidade adiada, relações mais seletivas. Nos anos 60, casar era, para muitas mulheres, uma forma de libertação. Hoje, pode ser o contrário. A liberdade deixou de estar no casamento e passou a estar na escolha.
Isto não é uma rejeição dos homens. É uma rejeição de um modelo de masculinidade que continua a apoiar‑se no conforto da dependência emocional, logística e até económica, sim, económica, porque muitas mulheres ganham hoje mais do que o seu parceiro. O que procuram não é perfeição: é parceria. Parceria, não tutela. Reciprocidade, não gestão. Presença, não peso.
As mulheres não estão cegas. Estão a ver demasiado bem. Estão a ver que a autonomia não se devolve. Que liberdade não se negocia. Que parceria não é maternidade emocional. E estão a ver, sobretudo, que crescer para o século XXI não é um privilégio feminino, é uma responsabilidade masculina que continua, demasiadas vezes, por cumprir.
A questão, portanto, não é o que aconteceu às mulheres.
A questão é quando é que os homens estarão finalmente dispostos a crescer.
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