Recordar é reviver. Perdoar não é esquecer
Perdoar parece ser esquecer. Mas há coisas tão dolorosamente imperdoáveis que, por mais que façamos por não as recordar, elas se impõem na memória. E, incansáveis, surgem uma e outra vez. E, quanto mais azemos por as esquecer, mais se insinuam. E mais se avivam. O que só é possível porque, mesmo que as tenhamos recordado um ror de vezes, hoje, ainda, nos custa perceber a forma inclemente como elas nos recordam que a dor é sempre traiçoeira.
Perdoar é compreender. (Não condescender.) Esmiuçar o enredo de tudo aquilo que nos magoou, intensamente. E depois de nos pormos no lugar de quem nos trouxe à dor, sermos capazes de a entender. O que, em muitas circunstâncias, não só não é possível como, mal nos aventuramos por aí, mais ensurdecedora ela se torna. E enlouquecedora, até. Não é quando se faz por perdoar que se desculpa. E não havendo esquecimento não há perdão. Perdoar não concorre com um sofrimento que persegue. Fazer por esquecer é reconhecer que o perdão não é possível.
“Desculpa!” traz o prefixo “des” com que se pede que nos aliviem a culpa. Representa, de certa maneira, um: “diz-me que não tive a culpa”. Ou: “reconhece que não tive a intenção”. Como se precisássemos da compreensão daqueles a quem fizemos mal para nos sentirmos bem. Mas há coisas tão graves e dores tão destroçantes que a sabedoria sugere que não se esqueçam. Há trabalhos de luto que, por mais que se tente, mais alicerçam a perda irreparável em que se ancoram.
O luto faz-se de perdas. De perdas pequenas. Reparáveis. Ultrapassáveis. Susceptíveis de conquistas posteriores, que minimizem aquilo que se perdeu. (E que quase nos levem ao seu esquecimento.) E de perdas insuportáveis. Que avivam uma dor “sangrenta”. Que desvitaliza. E nos fazem esvair em sofrimento. E que, por mais que........
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